Eu, aviso logo. Esse personagem não cabe em obituário curto nem em nota corporativa polida. Constantino de Oliveira Júnior foi daqueles homens que atravessam setores inteiros como quem muda o rumo da novela no capítulo 120. Quem acha que essa história é só sobre aviação nunca entendeu o Brasil.
Constantino nasceu dentro de um caminhão em movimento. Filho de caminhoneiro que virou empresário, cresceu vendo o país pela janela da estrada, entendendo cedo que mobilidade no Brasil sempre foi sinônimo de sacrifício. A família ergueu um império de ônibus, daqueles que ligam capital a interior, madrugada a madrugada, com passageiro dormindo torto e mala improvisada no colo. Foi ali que ele aprendeu a matemática dura do transporte. Encher, girar rápido, cortar custo e seguir viagem.
Ainda adolescente, virou piloto. Nada de glamour. Avião, pra ele, era extensão natural da estrada. Quando decidiu fundar a Gol, em 2001, não estava sonhando com status nem tapete vermelho. Estava fazendo conta. Se o ônibus podia rodar cheio, o avião também podia. A diferença era o céu.
A Gol entrou no mercado como quem invade sala fechada. Frota padronizada, menos serviço, passagem barata. Resultado imediato. Aeroportos lotados de gente que nunca tinha passado pelo raio-x. O Brasil descobriu o embarque. Executivos tradicionais torceram o nariz. Passageiro comemorou. O chamado “efeito Gol” virou orgulho nacional e, ao mesmo tempo, um problema que ninguém sabia como administrar direito.

Porque democratizar o voo teve custo. Aviões mais cheios. Pressão permanente por eficiência. Tarifas que oscilam como humor de participante de reality em semana de paredão. Funcionários no limite. Infraestrutura que não acompanhou o crescimento. Constantino virou símbolo de um modelo que funcionou, cresceu rápido e escancarou as fragilidades de um país que adora inaugurar e odeia manter.
Veio o auge. Capas de revista. O rótulo de bilionário jovem. Depois, os capítulos pesados que toda novela exige. A compra da Varig, prejuízos bilionários, crises sucessivas e o acidente do voo 1907, em 2006, que matou 154 pessoas e marcou para sempre a história da aviação brasileira. Constantino deixou de ser promessa e virou rosto de pressão, cobrança pública e desgaste permanente.
Em 2012, saiu da presidência executiva e passou ao conselho. Mudou de cadeira, não de influência. Também ajudou a estruturar o grupo ABRA, holding que concentra decisões estratégicas sobre Gol e Avianca, ampliando o alcance da família no tabuleiro da mobilidade latino-americana. Ônibus, avião, trilho. O mesmo sobrenome circulando por quase tudo que anda.
Enquanto isso, longe do discurso oficial, ele enfrentava havia anos um câncer. O tipo da doença nunca foi divulgado. Silêncio calculado, quase um traço de personalidade. Executivo que nunca transformou fragilidade em narrativa pública, preferiu seguir trabalhando, assinando decisões e aparecendo pouco.
A morte aos 57 anos fecha uma trajetória precoce demais para os padrões brasileiros e incômoda demais para caber em homenagem rasa. Constantino ajudou a tirar milhões do ônibus e colocar no avião, mas deixou um país que ainda não resolveu como fazer essa viagem ser justa, estável e sustentável.
Constantino tinha 57 anos. Jovem para morrer, velho o bastante para ter mudado um setor inteiro. Estava internado em um hospital de São Paulo e lutava havia anos contra um câncer.