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Kátia Flávia
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Constantino Júnior além da Gol: o que a morte do fundador da low cost revela sobre o Brasil que ainda não aprendeu a viajar

Filho de caminhoneiro, piloto desde a adolescência e um dos CEOs mais jovens do país, ele colocou milhões de brasileiros no avião e deixou perguntas que ninguém gosta de responder.

Kátia Flávia

24/01/2026 10h43

Filho de caminhoneiro, piloto desde a adolescência e um dos CEOs mais jovens do país, ele colocou milhões de brasileiros no avião e deixou perguntas que ninguém gosta de responder.

Eu, aviso logo. Esse personagem não cabe em obituário curto nem em nota corporativa polida. Constantino de Oliveira Júnior foi daqueles homens que atravessam setores inteiros como quem muda o rumo da novela no capítulo 120. Quem acha que essa história é só sobre aviação nunca entendeu o Brasil.

Constantino nasceu dentro de um caminhão em movimento. Filho de caminhoneiro que virou empresário, cresceu vendo o país pela janela da estrada, entendendo cedo que mobilidade no Brasil sempre foi sinônimo de sacrifício. A família ergueu um império de ônibus, daqueles que ligam capital a interior, madrugada a madrugada, com passageiro dormindo torto e mala improvisada no colo. Foi ali que ele aprendeu a matemática dura do transporte. Encher, girar rápido, cortar custo e seguir viagem.

Ainda adolescente, virou piloto. Nada de glamour. Avião, pra ele, era extensão natural da estrada. Quando decidiu fundar a Gol, em 2001, não estava sonhando com status nem tapete vermelho. Estava fazendo conta. Se o ônibus podia rodar cheio, o avião também podia. A diferença era o céu.

A Gol entrou no mercado como quem invade sala fechada. Frota padronizada, menos serviço, passagem barata. Resultado imediato. Aeroportos lotados de gente que nunca tinha passado pelo raio-x. O Brasil descobriu o embarque. Executivos tradicionais torceram o nariz. Passageiro comemorou. O chamado “efeito Gol” virou orgulho nacional e, ao mesmo tempo, um problema que ninguém sabia como administrar direito.

Porque democratizar o voo teve custo. Aviões mais cheios. Pressão permanente por eficiência. Tarifas que oscilam como humor de participante de reality em semana de paredão. Funcionários no limite. Infraestrutura que não acompanhou o crescimento. Constantino virou símbolo de um modelo que funcionou, cresceu rápido e escancarou as fragilidades de um país que adora inaugurar e odeia manter.

Veio o auge. Capas de revista. O rótulo de bilionário jovem. Depois, os capítulos pesados que toda novela exige. A compra da Varig, prejuízos bilionários, crises sucessivas e o acidente do voo 1907, em 2006, que matou 154 pessoas e marcou para sempre a história da aviação brasileira. Constantino deixou de ser promessa e virou rosto de pressão, cobrança pública e desgaste permanente.

Em 2012, saiu da presidência executiva e passou ao conselho. Mudou de cadeira, não de influência. Também ajudou a estruturar o grupo ABRA, holding que concentra decisões estratégicas sobre Gol e Avianca, ampliando o alcance da família no tabuleiro da mobilidade latino-americana. Ônibus, avião, trilho. O mesmo sobrenome circulando por quase tudo que anda.

Enquanto isso, longe do discurso oficial, ele enfrentava havia anos um câncer. O tipo da doença nunca foi divulgado. Silêncio calculado, quase um traço de personalidade. Executivo que nunca transformou fragilidade em narrativa pública, preferiu seguir trabalhando, assinando decisões e aparecendo pouco.

A morte aos 57 anos fecha uma trajetória precoce demais para os padrões brasileiros e incômoda demais para caber em homenagem rasa. Constantino ajudou a tirar milhões do ônibus e colocar no avião, mas deixou um país que ainda não resolveu como fazer essa viagem ser justa, estável e sustentável.

Constantino tinha 57 anos. Jovem para morrer, velho o bastante para ter mudado um setor inteiro. Estava internado em um hospital de São Paulo e lutava havia anos contra um câncer.

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