Célio José de Morais, médico cardiologista e vereador de Jaboticabal, no interior de São Paulo, ganhou fama nas redes como “Lula do Bem” por sua semelhança física com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonarista, ele agora disputa uma vaga de deputado federal pelo PL com R$ 755 mil inscritos na Dívida Ativa da União, segundo dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Com o almoço finalmente servido depois do telefone ter feito a minha panela quase pedir socorro, sentei à mesa e fui entender essa história. Porque não basta ser sósia de Lula: o homem circula com Bolsonaro, recebe apoio de Valdemar Costa Neto e escolheu justamente “Lula do Bem” como nome de urna. É uma montagem de personagens que o Brasil entregou sem nem precisar de autor de novela.

Do total inscrito em dívida ativa, R$ 513 mil são débitos previdenciários. A informação veio à tona no momento em que o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) liberou o registro da candidatura de Célio, apesar de a Procuradoria Regional Eleitoral ter pedido a impugnação.
O MPF argumentou que o nome poderia sugerir parentesco com o presidente e que a expressão “do Bem” carregaria uma mensagem ideológica e um juízo de valor. O TRE-SP, porém, rejeitou o pedido no domingo (31), e o candidato está autorizado a concorrer.
Acompanhei os grupos enquanto tentava, enfim, comer uma garfada em paz, mas esse apelido não deixa ninguém em paz. Célio se projetou entre bolsonaristas justamente explorando a imagem parecida com a de Lula e participou de manifestações ao lado de Jair Bolsonaro em 2025. Em março, Valdemar Costa Neto gravou um vídeo ao lado dele e declarou: “Nós precisamos de gente como ele aqui em Brasília, para trabalhar para o povo”.
A situação dos débitos também tem uma história anterior. Em 2006, o MPF abriu uma ação penal contra Célio por apropriação indébita previdenciária e crime continuado. A acusação tratava de contribuições descontadas de empregados ou terceiros que, segundo o processo, não teriam sido repassadas à Previdência dentro do prazo legal.
O caso ficou suspenso durante anos porque os débitos entraram em parcelamento. Depois, o crédito tributário foi cancelado administrativamente por prescrição, quando o Estado perde o prazo legal para fazer a cobrança. Com isso, o MPF apontou perda de interesse na continuidade da ação penal. Não houve condenação no processo.

A campanha de “Lula do Bem” declarou ainda R$ 300 mil recebidos do diretório nacional do PL. A equipe do candidato foi procurada para comentar os débitos e não respondeu.
Terminei o almoço olhando para a tela e pensando que, nesta eleição, até o sósia vem com enredo, dívida, partido e bênção de cacique. O Brasil realmente não trabalha com participação especial.