Uma carga que deveria levar cassiterita a uma empresa suíça chegou ao destino com areia e pó de brita, segundo a investigação da Polícia Federal. A denúncia da compradora, que calcula prejuízo de US$ 48 milhões, abriu caminho para uma apuração que acabou levando Alexandre Pires, sua empresa e antigos parceiros profissionais para o centro da segunda fase da Operação Disco de Ouro.
Eu estava passando a catraca da academia, com o cabelo preso e a bolsa de treino pendurada no ombro, quando fui lendo os detalhes. E, sinceramente, a história parece roteiro de filme: uma empresa compra minério valioso, recebe material de construção e, no rastro do dinheiro, aparece uma cadeia inteira de contas, intermediários e nomes do entretenimento.

A investigação aponta que o grupo teria usado licenças de mineração em Itaituba, no Pará, para dar aparência de legalidade à cassiterita que, na verdade, teria sido extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A cassiterita é conhecida como “ouro negro” e é usada na produção de estanho, presente em celulares, computadores, carros e outros equipamentos.
Enquanto esperava a aula aeróbica começar, amarrei o cadarço e fui atrás do ponto que tornou essa história tão escandalosa. Segundo a PF, depois que mais de 100 toneladas de minério foram apreendidas em 2022, os investigados teriam ficado sem produto para cumprir um contrato internacional. A solução, ainda segundo os investigadores, foi encenar o carregamento em armazéns de Manaus e enviar areia e pó de brita com laudos químicos falsificados.
A compradora suíça teria pago antecipadamente US$ 48 milhões pela carga. Quando os contêineres chegaram ao destino e o conteúdo foi conferido, a fraude teria sido descoberta. A denúncia à PF, feita em 2023, se tornou a faísca de uma investigação que passou a rastrear o caminho do dinheiro dentro e fora do Brasil.
Eu já estava ajustando a faixa da luva de boxe e pensando que a expressão “pó de brita” parece pequena perto do tamanho da encrenca. Porque a apuração descreve transferências internacionais, contratos considerados fictícios, contas de terceiros e operações de dólar-cabo, usadas, segundo a suspeita policial, para ocultar e redistribuir os valores.
Nesse rastreamento, a PF incluiu Alexandre Pires e sua empresa entre os alvos da nova fase. Documentos citados na investigação apontam um fluxo de R$ 31 milhões relacionado ao cantor e à produtora, sendo cerca de R$ 4,4 milhões em repasses diretos à empresa do artista, segundo reportagens sobre o caso. A corporação apura se pessoas físicas e jurídicas teriam sido usadas para fracionar, ocultar e dissimular recursos.
Antes de entrar na aula, deixei o celular no armário e fiquei com uma coisa muito clara: estar no alvo de uma investigação não significa condenação. A defesa de Alexandre Pires nega qualquer envolvimento dele com garimpo ou extração de minério, afirma que a relação com o ex-empresário Matheus Possebon se limitava à venda de shows e diz que o cantor confia no esclarecimento dos fatos.

A Operação Disco de Ouro cumpre 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens e valores. Os investigados poderão responder, conforme a participação que vier a ser comprovada, por lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica e operação irregular de instituição financeira. Agora, o caso que começou com uma carga de areia e brita vai ter de explicar, centavo por centavo, por onde passou esse dinheiro.