A Inteligência Artificial (IA) generativa deixou de ser uma tendência futurista para se consolidar como uma ferramenta presente no cotidiano escolar. De acordo com o mais recente levantamento da TIC Educação, publicado pelo Cetic.br, sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já utilizam ferramentas de IA para realizar pesquisas escolares, enquanto 43% dos professores da educação básica declaram adotar a IA generativa na preparação de conteúdos didáticos. Entre os educadores, a percepção também é positiva: estudo conduzido pelo Instituto Semesp aponta que 75% dos docentes consideram a tecnologia e a Inteligência Artificial grandes aliadas no processo de ensino-aprendizagem.
No Distrito Federal, essa transformação tecnológica ajuda a enfrentar uma das principais dores históricas da carreira docente: a sobrecarga de trabalho extraclasse. Longe de representar um risco de substituição da atuação humana, a tecnologia vem sendo incorporada como um verdadeiro “co-piloto” em instituições tradicionais da região, como o Colégio Sigma, reduzindo a burocracia e devolvendo aos professores um dos recursos mais valiosos da educação: o tempo pedagógico.
Para quem está na linha de frente do ensino, essa mudança já pode ser medida. Lucas Maia, professor do Colégio Sigma, vivenciava uma rotina em que cada aula exigia cerca de uma hora de preparação, envolvendo pesquisa, elaboração de slides, criação de atividades e busca por estratégias didáticas. Com a integração de ferramentas tecnológicas ao dia a dia, esse tempo caiu para aproximadamente 30 minutos por aula, mesmo em conteúdos mais complexos.
“Considerando a quantidade de turmas preparadas semanalmente, estimo uma economia de cerca de 4 a 6 horas por semana. É um tempo precioso que deixa de ser gasto na formatação de arquivos e passa a ser direcionado para acompanhar melhor os alunos e aperfeiçoar as práticas pedagógicas diretamente na ponta”, relata o professor.
O tempo economizado transformou-se em combustível para a inovação pedagógica. Lucas utiliza essas horas para desenvolver atividades gamificadas, criar desafios interativos e produzir vídeos explicativos personalizados, ampliando o engajamento dos estudantes e colocando o aluno no centro do processo de aprendizagem.
O modelo adotado pelo Colégio Sigma parte da premissa de que a IA não veio para substituir o professor, mas para ampliar sua capacidade de atuação. A estratégia integra um movimento liderado pelo Grupo Salta Educação, ecossistema educacional do qual a instituição faz parte.
A rede disponibiliza aos professores licenças corporativas de plataformas como Gemini, Canva e NotebookLM, garantindo um ambiente digital seguro e em conformidade com as normas de proteção de dados. O processo acontece de forma complementar: as ferramentas organizam informações, estruturam versões iniciais e aceleram tarefas operacionais, enquanto o professor revisa, contextualiza e acrescenta o olhar humano indispensável ao processo de aprendizagem.
Deborah Anastácio, Gerente do EducA+, área de formação docente do Grupo Salta Educação, destaca que a tecnologia ajuda a enfrentar um dos maiores desafios da educação brasileira.
“O professor brasileiro não tem problema de competência, tem problema de tempo. A quantidade de tarefas fora da sala de aula é grande: listas, relatórios, registros e adaptações. Quando o profissional passa horas focado nisso, sobra menos energia para olhar para o aluno, perceber quem está travado ou quem precisa de uma conversa.”

Personalização em larga escala
Com o apoio das ferramentas de IA, os educadores conseguem analisar com mais rapidez o desempenho coletivo e individual dos estudantes, identificando padrões de erros e lacunas de aprendizagem com maior precisão. Em avaliações diagnósticas recentes realizadas pela rede, formulários desenvolvidos com apoio da Inteligência Artificial passaram a oferecer feedbacks automáticos e sugerir novas atividades personalizadas de acordo com as dificuldades apresentadas pelos alunos.
“Personalização é uma das palavras mais usadas — e mais mal compreendidas — na educação hoje. Na prática, em uma turma de 35 alunos, você tem 35 ritmos, 35 histórias e 35 formas de aprender. É impossível dar conta disso sem apoio. A IA pode ajudar o professor a organizar essas informações, identificar padrões nos dados disponíveis e sugerir caminhos, como atividades em diferentes níveis, formas de retomada e adaptações de material. Ela reduz o esforço operacional de mapear toda essa complexidade”, reforça Deborah Anastácio.
Para reduzir a resistência natural que acompanha grandes transformações tecnológicas, o grupo também investe em letramento digital. Desde 2023, mais de 950 professores já foram capacitados, totalizando 7,2 mil horas de treinamentos, rodas de conversa e podcasts educativos.
A experiência demonstra que o futuro da educação passa pela tecnologia, mas continua profundamente humano.
“A IA não diminui a importância do professor. Ela exige mais dele: mais autoria, mais julgamento e muito mais presença”, conclui Deborah Anastácio.