Eu fiz uma pausa entre uma pesquisa e outra aqui em Milão, tentando me comportar como uma mulher civilizada, e uma amiga me liga de Florianópolis com aquela voz de quem viu uma coisa chique e já quer contar antes que outro conte. “Kátia, a Colcci entrou no hotel.” E não entrou para fazer desfile de taça na mão, entrou para mexer nos uniformes do Fuso Concept Hotel com essa conversa toda de cultura local, tecido sustentável e charme catarinense bem embalado.

O projeto junta a Colcci com o Fuso, hotel da Milano, em Florianópolis, e puxa referências da Ponte Hercílio Luz, da Fortaleza de São José e das rendeiras da região. Tudo isso foi parar nas peças usadas pela equipe, com tecidos naturais, viscose Ecovero, algodão certificado e tingimento que consome menos água. Traduzindo do idioma institucional para a vida real, resolveram vestir o staff com roupa que conversa com a arquitetura, com a paisagem e com o tipo de hóspede que ama dizer que teve uma experiência, não uma hospedagem.
Aí entra o ponto que me diverte. O uniforme, que por anos foi tratado em muito lugar como primo pobre do glamour, agora quer virar extensão da decoração, da narrativa, do branding, da alma do empreendimento e de mais meia dúzia de palavras que o povo do design adora servir no café da manhã. Passei no aperitivo e já voltei com teoria, hotel boutique hoje quer tanto contar uma história que, se bobear, até o guardanapo ganha biografia autorizada.
Me disseram também que o Fuso foi palco do lançamento da coleção de Primavera 2027 da Colcci, com Silvia Braz e nomes da cena de moda circulando por ali. Ou seja, não foi só parceria bonitinha de bastidor. Foi um arranjo bem costurado para fazer moda, arquitetura, hotelaria e desejo social sentarem na mesma mesa sem derrubar o arranjo. E eu respeito, porque pelo menos aqui tem coerência estética. Tem projeto que fala em identidade regional com cara de sala comercial de aeroporto. Esse, pelo que me contam, tentou sustentar o discurso com matéria-prima, cenário e imagem.
O que eu acho, caminhando por Milão e vendo esse tipo de operação de longe, é simples. A Colcci ganha refinamento de endereço, o Fuso ganha perfume de moda, e Santa Catarina ganha uma embalagem elegante para vender a própria ideia de sofisticação natural. No fim, é aquele casamento bem brasileiro entre conceito e conveniência, todo mundo sai posando de profundo, mas se a roupa estiver bonita, fresca e funcionando no corpo da equipe, já fez mais do que muito projeto cheio de fala bonita e zero vida real.