Eu continuo em casa. O Rio continua naquela chuva com vocação para dilúvio e eu, depois do café da manhã, já estou numa chamada de vídeo porque chegou uma informação que merece a atenção desta coluna: Cláudia Raia virou a grande fiscal de mãe e filho da Netflix.
E tem R$ 1 milhão no meio.
Minha filha, aí eu desliguei até a câmera por alguns segundos para raciocinar.
A Netflix estreia na próxima quarta-feira (26) “Sua Mãe Te Conhece?”, novo reality apresentado por Cláudia Raia. O programa reúne nove mães convencidas de que conhecem os filhos como a palma da mão e coloca essa certeza à prova da maneira mais capitalista possível: apostando dinheiro nas decisões deles.
Eu gostei imediatamente.
Porque amor de mãe é lindo. Agora, amor de mãe com R$ 1 milhão na mesa vira auditoria.
O mecanismo é uma maldade televisiva deliciosa: as mães acompanham os movimentos dos filhos sem que eles saibam. Enquanto isso, os filhos acreditam que estão participando de outro reality, vivendo numa espécie de república estudantil. É ali que acontecem situações destinadas a testar se mamãe realmente conhece aquele ser humano que criou, alimentou, levou para escola e passou décadas jurando: “Eu conheço meu filho”.
Conhece mesmo, querida?
Porque agora não adianta dizer que conhece. Tem que apostar.
E eu fico imaginando Cláudia Raia no meio dessa Bolsa de Valores materna. A mulher já fez musical, novela, cinema, teatro, dançou, cantou e agora chega à Netflix administrando o risco de mães perderem dinheiro porque descobriram, em rede mundial, que o filho não era exatamente aquele príncipe que aparecia no grupo da família.
Isso, para mim, não é reality. É due diligence de filho.
O projeto também tem um detalhe importante para o mercado audiovisual: “Sua Mãe Te Conhece?” é um formato original e 100% brasileiro, criado a partir de uma ideia de Gui Cintra e André Brandt. A produção é da BOXFISH em parceria com a Farra.
Foram mais de dois anos de desenvolvimento e uma equipe de mais de 300 profissionais envolvida no projeto.
A primeira temporada tem sete episódios. Os quatro primeiros chegam à Netflix em 26 de agosto, enquanto os três restantes serão lançados em 2 de setembro.
São nove duplas: Adriana e Pedro Alves; Ana Martinha e Kaynara Silva; Carla e Patrick Luvise; Cassia e Rafaela Marques; Cenir e Karina Araujo; Daniela e Monique Bernardi; Dri e Diego Varraschim; Inocência e Vicktoria Cruz; Monica e Beatriz Santos.
Agora, tem uma coisa que eu achei particularmente esperta.
O reality não depende de famoso brigando, ex-casal se reencontrando ou subcelebridade procurando câmera. A Netflix pegou uma frase que existe dentro de praticamente toda casa brasileira — “eu conheço meu filho” — e transformou isso num jogo.
Simples. Popular. Exportável.
E perigosíssimo para a autoestima materna.
Porque eu já estou avisando: vai ter mãe descobrindo que criou um desconhecido.
E é exatamente por isso que estarei assistindo.
Continuo aqui na chamada de vídeo, olhando a chuva pela janela e pensando numa única coisa: eu não apostaria R$ 1 milhão nem no comportamento de quem eu pari, imagine de quem eu conheci num almoço de domingo.
Cláudia Raia, querida, boa sorte.
Porque comandar nove mães apostando nos próprios filhos não é apresentar reality.
É abrir o pregão da B3 com instinto materno.