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Kátia Flávia
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Claro antecipa NR-01 e testa gestão de saúde mental com startup

Parceria com a paranaense Previneo aplica algoritmo para mapear riscos psicossociais e coloca a operadora na dianteira da nova regra trabalhista.

Kátia Flávia

28/02/2026 13h00

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Rodrigo Fernandes, VP de RH da Claro. Foto: divulgação

Eu sempre digo que norma trabalhista só vira realidade quando bate na planilha e no risco jurídico. E a Claro resolveu não esperar o prazo estourar. Enquanto boa parte do mercado ainda discute como cumprir a nova NR-01, a operadora colocou o tema em teste real e estruturado.

Em parceria com a Previneo, a Claro conduziu entre abril e agosto de 2025 o projeto Claro Saúde Integral, um piloto de avaliação e gestão de riscos psicossociais no trabalho que antecipa, na prática, as exigências do Programa de Gerenciamento de Riscos que passa a valer plenamente em maio de 2026.

A atualização da NR-01 deixou explícito algo que muita empresa fingia não ver. Riscos psicossociais também são risco ocupacional. Estresse crônico, sofrimento mental e fatores organizacionais entram oficialmente no radar regulatório. A Claro decidiu tratar isso como tema de governança, não de discurso.

O projeto aplicou um questionário com mais de 70 perguntas a cerca de 40 mil colaboradores, com taxa de resposta de 30%. O diferencial não está no volume, mas na leitura. O algoritmo da Previneo permite identificar o nível de risco psicossocial por área, considerando até dez dimensões distintas, indo muito além das pesquisas tradicionais de clima.

Segundo Rinaldo Guazzelli, COO da Previneo, o trabalho funcionou como um ensaio geral da nova norma. A plataforma mapeia riscos de saúde mental e física e oferece subsídios técnicos para planos de ação mais precisos. O projeto contou ainda com a participação do psiquiatra Carlos Augusto Maranhão de Loyola e equipes médicas das duas organizações.

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Rinaldo Guazzelli, COO da Previneo. Foto: divulgação

Aqui entra o ponto que separa compliance sério de maquiagem corporativa. Os dados não são individualizados nem acessados pelo RH. As informações ficam restritas ao corpo médico, garantindo confidencialidade e evitando o uso indevido dos resultados. A empresa ganha um radar de risco. O colaborador mantém sua privacidade.

Além dos fatores psicossociais clássicos, o projeto avaliou saúde mental e riscos de comportamentos aditivos, como a ludopatia, tema que virou dor real nas áreas de pessoas com a explosão das apostas online. Sem diagnóstico estruturado, empresas ficam cegas para o problema.

Na Claro, os resultados indicaram baixo risco em saúde mental e nenhum caso classificado como alto risco. Alguns poucos locais apresentaram risco psicossocial médio na dimensão de controle. Para Rodrigo Fernandes, vice-presidente de Recursos Humanos da Claro, o projeto reforça decisões baseadas em evidências. Saúde mental, segundo ele, é tema estruturante para a sustentabilidade das organizações e para a qualidade de vida das pessoas.

Rodrigo também aponta um efeito colateral positivo. Os dados ajudam a separar fatores organizacionais de questões pessoais ou familiares, muitas vezes confundidos nos afastamentos. Informação estruturada tira o debate do achismo e leva a gestão para o campo técnico.

O piloto incluiu ainda um assessment de saúde voltado aos executivos, com foco em prevenção e autocuidado. A adesão foi alta e já resultou em acompanhamento médico de casos que exigiam atenção. A partir de 2026, a Claro pretende cruzar os dados da NR-01 com pesquisas de clima e ferramentas de experiência do colaborador, usando inteligência artificial para orientar ações preventivas.

O movimento acontece em um cenário que não permite mais adiamento. Só em 2023, mais de 288 mil benefícios por incapacidade foram concedidos no Brasil por transtornos mentais. Ao mesmo tempo, cerca de 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada serão impactados diretamente pelas exigências do PGR.

No fim das contas, a parceria entre Claro e Previneo deixa um recado incômodo para o mercado. Saúde mental saiu do campo do discurso e entrou no mesmo nível de formalização que qualquer outro risco ocupacional. Quem tratar isso como tendência passageira vai aprender pela via mais cara. A regulatória.

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