Há pessoas que passam a vida tentando escolher um único caminho. Clara Petrucci descobriu, ao longo da própria trajetória, que não precisava escolher. Cantora, nutricionista, mãe e comunicadora, ela construiu diferentes versões de si mesma sem enxergar essas experiências como partes separadas. Para ela, todas se encontram em um mesmo propósito: cuidar, criar conexões e levar algo positivo para quem está por perto.
Nascida e criada em Niterói, no Rio de Janeiro, Clara cresceu cercada por música. Com parte da família de origem baiana, ela diz carregar “um dendê no sangue” e ter sido criada em um ambiente em que arte e cultura faziam parte da rotina. A mãe é musicoterapeuta e pianista, o pai toca violão e acordeão e, entre os cinco irmãos, quem não seguiu pela música acabou encontrando outros caminhos ligados à arte.
O contato com a música começou cedo. Clara aprendeu a ler partituras antes mesmo de aprender a ler e escrever e, ainda criança, já participava de apresentações escolares. Aos 11 anos, começou a cantar em bares e, aos 12, gravou o primeiro jingle. Na adolescência, passou a perceber que aquele talento que inicialmente parecia apenas uma brincadeira poderia se transformar em profissão.
“Eu entendi que aquilo poderia ser uma profissão e eu poderia usar o meu talento e tudo que eu amo como uma forma de trabalho, de vida”, conta.

A carreira musical ganhou novos contornos quando Clara passou a atuar profissionalmente e a circular por diferentes estilos. Ela integrou uma banda ligada à Caco de Telha, produtora associada à cantora Ivete Sangalo, e dividiu experiências com nomes como Nando Reis e D2. Também participou do Dream Fashion Tour, evento internacional que reuniu grandes nomes da música e da moda.
Durante a passagem por Salvador, Clara também viveu uma experiência marcante em sua formação musical. Em 2004, ganhou uma bolsa de estudos em uma academia de música e passou a integrar a La Elas, banda formada por 11 mulheres que transitavam pelo samba e pelo partido-alto. A experiência ampliou suas referências e reforçou ainda mais a relação que já tinha com a música brasileira.
Entre tantas apresentações, duas permanecem especialmente marcadas na memória. Uma delas aconteceu no Chevrolet Hall, em Recife, diante de 18 mil pessoas, quando Clara abriu o show de Ivete Sangalo. A outra foi no estádio do Canindé, em São Paulo, em uma noite de chuva intensa, quando a banda era a primeira atração de um evento que reunia nomes como Natiruts, Inimigos da HP e Ivete.
Todas essas experiências, segundo Clara, ajudaram a consolidar uma característica que a acompanha até hoje, a comunicação como ferramenta de aproximação. Foi também por meio dela que outro universo começou a ganhar espaço em sua vida.

Enquanto seguia na música e mantinha uma rotina ligada aos esportes, Clara começou a perceber que as pessoas tinham curiosidade sobre sua alimentação, saúde e maneira de cuidar do corpo. O interesse despertado por essas perguntas fez com que ela enxergasse na nutrição uma nova possibilidade de atuação.
Clara destaca que decidiu então fazer uma segunda formação e mergulhou no universo da nutrição. Trabalhou durante anos com fisiculturismo, acompanhou pacientes e se especializou também no atendimento a pessoas com HIV. A nova profissão não apagou a cantora. Pelo contrário, passou a dialogar com ela.
“Seja nutrindo pela música ou pelo alimento, eu procuro trazer isso, é o que eu amo”, afirma.
A ideia de nutrição, para Clara, também ultrapassa a alimentação. Ela fala sobre a importância de cuidar daquilo que se consome de diferentes maneiras, seja pela comida, pela música, pelas relações ou pelo contato com a natureza. É uma visão que ajuda a explicar por que as duas carreiras, apesar de distintas, acabaram encontrando um ponto de equilíbrio.
Essa integração ficou ainda mais clara com o avanço das redes sociais. Para Clara, a internet ajudou a perceber que não era necessário apresentar ao público uma versão fragmentada de si mesma, como se fosse preciso escolher entre a nutricionista e a cantora.
“Nós somos multi, nós temos múltiplos potenciais, múltiplos talentos. E a gente não precisa esconder ou segregar”, afirma.
A rotina, no entanto, exige organização. Entre os compromissos profissionais e a música, Clara também é mãe de dois meninos. Ela define a relação entre a maternidade, a nutrição e a carreira musical como três “pratinhos” que precisa manter em equilíbrio. Para isso, conta com uma rede de apoio formada pela família e por pessoas que participam de sua rotina.
A própria experiência como nutricionista acabou ensinando lições que hoje também aplica à carreira artística. Organização e planejamento, fundamentais para a alimentação e para o acompanhamento dos pacientes, passaram a influenciar sua maneira de lidar com a música.
“Quanto mais eu aplico isso na música, melhores resultados eu tenho. Então unir uma coisa à outra não é mais um problema para mim, é uma solução.”
Hoje, depois de tantos caminhos percorridos, Clara continua alimentando novos sonhos. Entre eles está o desejo de estudar ainda mais música em Salvador e, principalmente, realizar uma grande roda de samba em meio à natureza, reunindo música, consciência ambiental e pessoas dispostas a compartilhar um momento de alegria.
O sonho traduz muito do que ela busca construir em diferentes áreas da vida. Depois de uma trajetória marcada por palcos, consultórios, maternidade e diferentes experiências profissionais, Clara parece ter encontrado uma forma própria de reunir todas essas histórias em uma só.
“Eu não tenho vocação para ser infeliz”, diz, ao falar sobre a maneira como encara a vida.
É essa disposição para encontrar beleza nas diferentes fases que ajuda a explicar a trajetória de Clara. Ela não precisou abandonar a cantora para se tornar nutricionista, nem deixar a profissional de saúde de lado para continuar vivendo a música. Entre uma consulta, um compromisso familiar e um palco, ela segue construindo uma história em que cuidar e emocionar fazem parte da mesma linguagem.