Estou aqui na Costa Amalfitana com a brisa do Tirreno no rosto e o Brasil me manda um vídeo de CJ do GTA fazendo exame de acuidade visual em Ceilândia. Parei tudo. Larguei o cardápio do almoço, segurei o limoncello no ar e assisti três vezes seguidas. Um criador de conteúdo, com os movimentos travados e os ângulos de câmera característicos do jogo de 2004, passeando pelos corredores do Hospital de Olhos Santa Lucia como se fosse mais uma missão do mapa.
O que o vídeo mostra: CJ chega ao hospital em Ceilândia, passa pela recepção, senta na cadeira do médico e enfrenta o exame de acuidade visual, momento em que tenta ler as letras projetadas e erra cada uma delas com a postura característica do personagem. A cena cômica desmistifica a cirurgia refrativa a laser, que corrige miopia, hipermetropia e astigmatismo, usando o humor do game para falar de saúde ocular com uma naturalidade que nenhum anúncio convencional conseguiria.

/GTA na vida real)
O feed explodiu porque a combinação de nostalgia do GTA San Andreas com Ceilândia real é um golpe de ou brasilidade que funciona em qualquer algoritmo. Novecentas mil visualizações em poucos dias, comentários de quem cresceu jogando o game nos anos 2000 e de quem tem medo de fazer cirurgia nos olhos, tudo misturado numa seção de comentários que é, ela mesma, um espetáculo à parte.
Minha leitura pirua: a Agência Boa Imagem, responsável pelo conceito criativo, entendeu que publicidade médica funciona quando para de parecer publicidade médica. Colocar CJ, um dos personagens mais amados da história dos games, numa consulta de rotina num hospital do DF é um acerto de mapeamento cultural que a maioria das grandes agências pagaria caro para ter tido primeiro.
Aqui da Amalfi, onde todo mundo usa óculos de grife e ninguém admite que precisa de lentes, eu olho pro mar e penso: CJ do GTA San Andreas está fazendo mais pela saúde ocular do Brasil do que qualquer campanha do Ministério da Saúde dos últimos dez anos