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Kátia Flávia
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Cirurgia bariátrica no SUS vira novela e fila passa de mil dias

O mutirão vem aí com cara de capítulo especial, mas a fila segue longa e eu já estou emocionalmente envolvida com esse drama nacional.

Kátia Flávia

02/03/2026 15h30

O mutirão vem aí com cara de capítulo especial, mas a fila segue longa e eu já estou emocionalmente envolvida com esse drama nacional. (Foto: Divulgação)

Meu amor, eu juro que tentei ler isso com postura de jornalista responsável, mas em três parágrafos eu já estava vivendo um melodrama daqueles bem exagerados, com música alta, close no rosto do paciente e eu, Kátia Flávia, passada!  

Cirurgia bariátrica no SUS virou uma novela que não acaba nunca, dessas que a gente acompanha há anos e sempre promete uma virada que demora a chegar.

Segundo levantamento da SBCBM, entre 2020 e 2024, o Brasil realizou 31.351 mil cirurgias bariátricas pelo SUS. (Foto: Divulgação)

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica anunciou um mutirão nacional para realizar 200 cirurgias em 10 estados agora em março, aproveitando o Dia Mundial de Combate à Obesidade. Duzentas cirurgias. Eu até bati palma aqui, confesso, porque qualquer movimento já parece um alívio num cenário que vive travado no drama. Só que aí eu fui ler o resto e a empolgação caiu igual personagem que escorrega no último degrau da mansão.

Em 2025, menos de 1 por cento das pessoas que tinham indicação para cirurgia conseguiram operar pelo SUS. Menos de 1 por cento. Eu tive que sentar para processar, porque enquanto isso a obesidade cresce como vilã que ganha mais espaço a cada capítulo. Segundo o Ministério da Saúde, o avanço foi de 118 por cento no país. A doença faz participação especial em todas as cenas, enquanto o tratamento aparece pouco e sempre atrasado.

Mutirão inédito vai realizar 200 cirurgias bariátricas pelo SUS em 10 estados no dia 04 de março (Dia da Obesidade) – Foto: Divulgação

Tem estado onde a fila de espera passa de mil dias. Mil dias, meu povo. Isso não é espera, isso é teste psicológico com figurino de hospital. O paciente entra na fila cheio de expectativa e vai acumulando problema de saúde, frustração, medo e aquela sensação de abandono que ninguém gosta de admitir, mas todo mundo sente.

Entre 2020 e 2024, o Brasil realizou quase 292 mil cirurgias bariátricas. Aí você pensa que está tudo resolvido, só que não. A maioria foi feita pelos planos de saúde. Pelo SUS, pouco mais de 31 mil nesse período inteiro. Nos últimos dois anos, 25 mil procedimentos públicos. É pouco para um país desse tamanho e com esse nível de adoecimento.

O presidente da entidade, Juliano Canavarros, foi direto ao ponto ao lembrar que a oferta de cirurgias está muito abaixo da demanda e que quem fica na fila sofre com o agravamento das doenças associadas e a dificuldade de manter uma vida saudável. Tradução da Kátia, o corpo pede socorro e o sistema responde com senha, protocolo e paciência forçada.

A própria SBCBM reforça a importância de hospitais e cirurgiões credenciados, tudo feito com segurança, como tem que ser. Ninguém quer cirurgia feita de qualquer jeito, isso aqui não é reality de improviso. Só que segurança sem acesso vira luxo, e luxo não combina com SUS.

O mutirão ajuda, claro que ajuda. Resolve algumas histórias, muda o destino de alguns personagens. Mas a novela segue longa, a fila continua cheia e o público já começou a cobrar coerência do roteiro. E eu sigo aqui, comentando tudo em voz alta, porque esse drama da vida real não dá para assistir em silêncio.

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