Estou no Galeão, sala de embarque, com o cartão de embarque na mão e a paciência já no limite do aeroporto brasileiro. Sentei, tirei o salto, e o telefone tocou. Do outro lado, alguém que trabalha em programa matinal e sabe exatamente o que me faz esquecer que estou de viagem marcada. Ouvi tudo com o pé descalço apoiado na mala.
Christiane Torloni foi ao Mais Você desta terça e contou para Ana Maria Braga e Tati Machado que está aprendendo a surfar. Ela tem tido aulas na Baixada Santista, no litoral paulista, e o programa exibiu as imagens da atriz em cima da prancha, no mar, tentando ficar de pé. Ela mesma classificou o desempenho com honestidade: o primeiro dia foi o primeiro dia, e agora está um pouquinho melhor.

A origem da decisão é boa demais para resumir. Ela contou que ficava olhando o povo brincando na água, lembrou que queria aquilo desde criança e concluiu com um “ah, vou lá”. Ligou para a escola de surfe e o profissional que atendeu não acreditou que era ela. Perguntou se era ela mesma. A atriz explicou o motivo de estar levando o negócio a sério agora: para ela, aquilo é uma dívida com a própria infância. No meio da conversa, apareceu ainda a expressão que virou manchete, sobre manter o tesão pela vida.
E aí veio a segunda notícia do dia, que passou quase despercebida no meio das ondas. Torloni revelou que está fazendo um documentário sobre a mãe, a atriz Monah Delacy, que completou 97 anos e é veterana da televisão e do teatro brasileiros. O título é “Quase Não Nasci”, e a explicação veio da própria filha: a mãe era tão ocupada que ela costuma brincar dizendo que quase não nasceu.

Repare no calendário dela, porque isso explica o tamanho da história. Torloni está em cartaz com Antônio Fagundes em “Dois de Nós”, espetáculo que já passou das duzentas apresentações e voltou ao TUCA, em São Paulo, neste ano. Peça em cartaz, documentário em produção e aula de surfe encaixada na agenda. Existe gente com metade dessa idade que não consegue encaixar academia duas vezes por semana.
Chamaram meu voo. Vou embarcar pensando naquela mulher em cima da prancha na Baixada Santista, insistindo em ficar de pé aos 69 anos, e na cara do rapaz da escola de surfe quando percebeu quem estava do outro lado da linha. Em Ibiza eu até entro no mar. De prancha, nem sonhando. Minha dívida com a infância é outra e envolve sorvete.