Estou dentro do carro, parada na altura da Lagoa, atrasadíssima para a academia no Leblon, e já perdi a aula das oito por causa dessa história. Motorista com o rádio ligado, eu com o celular na orelha ouvindo uma amiga chorar de rir, e o meu personal me mandando aquele emoji de relógio que eu finjo não ver. Chegar atrasada por causa do Celso Portiolli é um tipo de desculpa que eu aceito.
Vamos aos fatos, porque a coisa é boa. No Caldeirão com Mion, no quadro Tem ou Não Tem, exibido no sábado, os participantes tinham que adivinhar quais apresentadores foram citados por 100 mulheres numa pergunta bem específica: se o parceiro liberasse uma traição única, com qual nome da TV elas usariam essa carta. O painel tinha seis opções, Marcos Mion, César Tralli, Luciano Huck, William Bonner, Tadeu Schmidt e o próprio Celso. Rodrigo Faro e Pedro Bial também apareceram nas respostas das entrevistadas, só não entraram no quadro. E aí vem a parte que travou o Brasil na segunda: Celso Portiolli liderou com 37 menções, seguido por Marcos Mion com 19, César Tralli com 18, Luciano Huck com 9, William Bonner com 8 e Tadeu Schmidt com 4. O homem passou o âncora do Jornal Nacional numa pesquisa sobre desejo e ninguém estava preparado.

A devolutiva veio no domingo, no Domingo Legal, e foi cirúrgica. A personagem Bernabela repercutiu o assunto no palco, disparou que Celso tinha desbancado até o William Bonner e pediu que ele mandasse um recado para as mulheres da pesquisa. Ele mandou. Disse que quem respondeu o nome dele podia mandar uma DM, tudo em galhofa. Antes, quando o humorista comentou que ele saíra na Globo como o homem que a mulherada quer, Celso emendou que deviam ter perguntado para a avó dele. E a melhor camada da cena é a piada do próprio humorista, que contou ter chorado pensando na carreira quando a vizinha gritou que o Celso estava na Globo, referência ao tempo em que era parceiro de palco de Eliana, hoje contratada da líder de audiência.
Aqui entra a leitura que me interessa. Celso Portiolli construiu trinta anos de carreira na chave do apresentador querido, do cara da família, do sujeito que abraça criança em auditório e chora com reencontro. A pista do sex symbol nunca foi a dele, e justamente por isso o resultado da pesquisa funciona tão bem: as entrevistadas premiaram familiaridade e simpatia, não a estética de galã que a TV insiste em vender. Ele entendeu isso na hora. Casado há anos com a designer Suzana Marchi, poderia ter tratado o assunto com aquele constrangimento pudico que estraga qualquer piada, e escolheu o caminho oposto, aceitou a brincadeira, devolveu a brincadeira e virou pauta em duas emissoras no mesmo fim de semana. Um apresentador do SBT sendo eleito objeto de desejo dentro de um programa da Globo e respondendo no palco do SBT é o tipo de circulação de assunto que dinheiro nenhum compra.
Agora me digam se não é irônico. Enquanto meio mundo da televisão paga assessoria para tentar emplacar uma manchete, o Celso ganhou a segunda simplesmente sendo o Celso. Chego atrasada na academia, mas chego rindo. E se alguma das 37 mandar a DM, minha filha, me conta.