Amores, eu estava quieta no meu cappuccino, pão de queijo quente, requeijão escorrendo perigosamente, quando o telefone começou a vibrar como se tivesse visto um fantasma. Áudios, prints, notificações, tudo girando em torno da mesma frase torta: “a mãe do Macaulay Culkin morreu”.
Respirei. Pisquei. Revirei os olhos. Porque quando a internet resolve enterrar alguém, ela não pede autorização nem da pessoa.
Estamos falando de Catherine O’Hara, senhora absoluta da comédia, dona da mãe mais culpada da história do cinema, mulher que a cultura pop tenta resumir em “atriz de Esqueceram de Mim” como se isso fosse pouco. Não é. Nunca foi.
Muito antes de qualquer TED Talk sobre maternidade consciente, Catherine já tinha criado Kate McCallister em Esqueceram de Mim. A mulher que organiza Natal para uma família inteira, entra num avião lotado, cruza o oceano e só então percebe que esqueceu o filho em casa.
O grito “Kevin!” virou idioma universal. Mãe chama filho assim no corredor, no shopping, no áudio de um minuto e meio no WhatsApp. Catherine transformou culpa, histeria e amor desesperado em comédia com nervo, suor e desespero real. Nada de mãe de comercial de margarina. Era mãe cansada, errando feio e seguindo em frente.
Depois veio Delia Deetz em Beetlejuice. Madrasta artista, autocentrada, obcecada por estética, mais preocupada com escultura conceitual do que com a sanidade da casa assombrada. Uma delícia de nervo.
E então, anos depois, Catherine ressurgiu para o streaming como um meteoro de peruca e sotaque em Schitt’s Creek, vivendo Moira Rose. Ex-estrela de novela, ego inflado, vocabulário impossível, zero senso de realidade. Mãe ausente. Diva falida. Ícone instantâneo. Foi ali que o mundo finalmente entregou a ela um Emmy, depois de décadas fingindo que não via.
Repara no padrão, meus amores. Kate, Delia, Moira. Mães exageradas, distraídas, autocentradas, falhas. Todas completamente humanas. Todas viraram personagens de conforto. Aquelas que a gente reassiste no Natal, no Halloween ou num domingo meio deprimido, como quem visita uma tia rica e maluca que fala alto demais, mas a gente ama.
Muito antes de Hollywood tentar enquadrar Catherine, ela já era lenda no Second City Television, no Canadá, parodiando de Lucille Ball a Katharine Hepburn. Humor grande, corpo em cena, caricatura com alma.
Virou musa de diretores que gostam de gente deslocada, como Tim Burton e Christopher Guest, justamente porque ela sabia fazer o ridículo virar afeto. Se hoje mulheres podem ser estranhas, exageradas e centrais na comédia sem pedir desculpa, tem muito de Catherine abrindo essa porta na marra.
A ironia é que, enquanto a internet espalha boato de morte, Catherine está mais viva do que nunca na memória coletiva. Geração Netflix descobriu Moira antes de conhecer Kate McCallister. Depois correu para a Sessão da Tarde entender de onde vinha aquele talento todo.
Ela virou referência tardia, cultuada, celebrada, chamada para projetos, premiações e homenagens. Daquelas artistas que o público finalmente entende quando já devia estar entendendo há décadas.