Eu, Kátia Flávia, estava cuidando da minha vida, que já é difícil o suficiente, quando o Brasil resolveu enlouquecer coletivamente com o caso do cão Orelha. Praia Brava, Florianópolis, cachorro comunitário, final cruel, adolescentes de classe alta, adultos indiciados por coação. Pronto. A internet ganhou um vilão, a TV ganhou uma armadilha e o domingo virou tribunal.
A cobrança foi imediata. Cadê a TV aberta. Cadê o Fantástico. Cadê a indignação. Enquanto o público fervia, a Globo optou pela calma, pela liturgia, pela explicação com tom de aula magna. Quando finalmente colocou o caso no ar, já era tarde demais para agradar quem queria sangue simbólico e punição em horário nobre.
O Fantástico veio correto até demais. Cronologia, delegada, veterinário, pai de adolescente investigado, advogado afinado com discurso de manual jurídico. Faltou só o quadro negro e o giz. Falou de leis fracas, de indícios, de limites da investigação, de ausência de imagens. Tudo certo. Tudo legal. Tudo incapaz de competir com a fúria digital.
Resultado. A Globo virou vilã instantânea. Foi chamada de morna, de conivente, de emissora que protege sobrenome e passa pano com luva branca. Dar voz à defesa virou crime moral. Cautela virou suspeita. Explicação virou provocação. Para a audiência, a Globo não contou a história, relativizou.
Enquanto isso, a Record entrou como quem sente cheiro de ibope a quilômetros. O Domingo Espetacular jogou emoção na veia. Palavra dura, imagem forte, trilha pesada, morador chorando, ativista indignado, especialista falando em crueldade e impunidade sem rodeio. Mandado de busca, polícia em ação, narrativa fechada com cheiro de justiça popular.
A internet aplaudiu de pé. Chamaram de corajosa, de necessária, de emissora que não se esconde. A Record virou porta-voz da raiva coletiva. Orelha virou mártir oficial do feed. Quem não se emocionou foi tratado como cúmplice.
Os vídeos comparativos explodiram. De um lado, a Globo explicando. Do outro, a Record acusando.
A comparação virou entretenimento. Fantástico passou a ser sinônimo de frieza. Domingo Espetacular virou sinônimo de coragem. A realidade virou detalhe.