Meu povo, eu estava aqui em Milão quando essa notícia chegou, e eu precisei sentar. De verdade, sentar, largar o telefone na mesa e ficar um momento em silêncio, porque tem certas histórias que a gente recebe no peito antes de conseguir processar na cabeça. Clécio Souto, dublador de 59 anos, a voz que deu vida ao Capitão América de Chris Evans, a Thomas Shelby em Peaky Blinders, a Damon Salvatore em The Vampire Diaries, a Castiel em Supernatural, publicou uma carta de despedida nas redes sociais neste fim de semana. Escreveu que estava doendo demais continuar. Que a solidão, as dívidas e a escassez de trabalho estavam o consumindo. Que nunca havia sido feliz. Que queria buscar a própria paz.
Amigos reconheceram os sinais, acionaram o SAMU, e Clécio foi resgatado em casa no Rio de Janeiro e levado a um hospital, onde segue em acompanhamento médico e psicológico. A situação foi estabilizada. Ele está sendo cuidado. Mas o que ficou flutuando no ar, meu amor, o que a internet não conseguiu engolir fácil, foi a imagem de um homem que passou décadas habitando heróis e não encontrou, na vida real, quem habitasse o espaço ao lado dele.
Isso aqui não é fofoca. Isso é a radiografia de uma indústria inteira que consome talento e devolve instabilidade. A dublagem brasileira funciona por cachê por obra, sem contrato fixo, sem previsibilidade, sem rede de segurança para quem fica mais velho e começa a ser preterido pelos mais novos. Clécio citou na carta a falta de trabalhos recentes, e esse detalhe dói de um jeito específico, porque ele não estava pedindo fama, estava pedindo ocupação, propósito, a sensação de ainda pertencer a algum lugar.
Meus fofoqueiros de elite, eu cubro entretenimento faz tempo, e uma coisa que a indústria nunca aprendeu a fazer direito é olhar para quem está por trás da magia. O rosto do Clécio, a maioria de vocês não conhece. A voz dele, vocês cresceram ouvindo. Tem algo muito torto num mercado que invisibiliza dessa forma o artista que ele mesmo precisa para existir. Com o streaming multiplicando produções, o que aumentou foi o volume de trabalho para poucos, e a fila de espera para muitos.
A comoção nas redes foi imediata e genuína. Colegas de profissão pediram empatia e atenção ao sofrimento mental de artistas. Fãs inundaram os comentários com depoimentos de séries que marcaram suas infâncias e adolescências. Tudo isso é bonito, e eu espero que chegue até ele de alguma forma. Mas também espero que a indústria leia essas mesmas mensagens e entenda que afeto nas redes não substitui trabalho, renda e dignidade profissional.
Se você chegou até aqui e reconheceu algo do que Clécio descreveu na sua própria vida, o CVV atende 24 horas por dia pelo telefone 188, pelo chat em cvv.org.br, e pelo e-mail, de graça, sem julgamento. Acionar ajuda para si mesmo ou para alguém próximo não é fraqueza. É exatamente o que os amigos do Clécio fizeram por ele neste fim de semana, e fez toda a diferença.