Eu já achava que este Carnaval tinha entregado tudo, até Carlinhos Brown resolver atravessar a avenida com um discurso que deixou metade da internet sem saber se aplaudia ou xingava. Do alto do trio, ele mandou o recado para Claudia Leitte sem rodeio. Disse que ela não deve ligar para quem tenta dizer o que pode ou não pode ser falado no Carnaval. E aí ele foi além, bem além.

Brown puxou Jesus para o centro da conversa com a tranquilidade de quem sabe exatamente o peso simbólico do que está dizendo. Falou que todos os lugares podem falar de Deus, que todos os lugares podem falar de Jesus, e que o mundo não existe para confronto, existe para unir pessoas. A frase caiu como glitter em olho de patrulha.
O trecho que mais embaralhou as narrativas veio logo depois. Brown conectou a mensagem de Jesus a respeito, gênero, amor, sexo e mulher, tudo num mesmo pacote, sem pedir autorização a nenhuma bolha religiosa. Eu vi timeline congelar nesse ponto, porque ninguém esperava esse discurso sair daquela boca, naquele palco, naquele contexto.
O impacto não foi só pelo conteúdo, foi pelo mensageiro. Um artista identificado historicamente com o candomblé, com a ancestralidade africana e com o sincretismo baiano defendendo a circulação de Jesus no Carnaval desmonta discursos prontos dos dois lados da guerra cultural. Não agrada conservador e também incomoda quem tenta transformar a festa em território exclusivo de uma única leitura simbólica.
No meio da fala, Brown ainda reposiciona o Carnaval com elegância venenosa. Ele tira a festa da caricatura da carne e puxa para a alegria, para a felicidade coletiva, para a Bahia como lugar de encontro. Não teve pedido de licença, teve afirmação direta, do jeito que deixa muita gente sem chão.
Claudia Leitte, que vinha sendo alvo de crítica e leitura enviesada, acaba protegida por uma figura improvável. Brown não fala como pastor, nem como militante. Fala como mediador experiente, cansado de ver fé virar ferramenta de veto e cancelamento.
A reação foi previsível para quem acompanha bastidor. Teve acusação de traição, teve aplauso emocionado, teve corte de vídeo fora de contexto e teve disputa feroz para sequestrar o discurso. Tudo ao mesmo tempo, tudo barulhento, tudo muito Carnaval.
Eu assisti, anotei e confirmei uma coisa. O recado mais incômodo não foi religioso. Foi político. Brown lembrou que o Carnaval não pertence a quem grita mais alto na internet. Pertence à mistura. E quando ele disse isso em voz alta, muita gente percebeu que perdeu o controle da narrativa.