Eu estava saindo do hotel aqui na Itália com uma sacola de trufas que custou o que não devia, quando minha fonte me ligou com aquela voz de quem acabou de ver algo que não esperava. Uma brasileira foi a um campeonato mundial de gastronomia na França, usou cachaça numa receita de frango, e saiu de lá com resultado que fez a cozinha europeia parar pra processar o que havia acontecido. Contei a história pro sommelier do restaurante onde jantei depois e ele ficou sem fala por uns bons segundos, o que, para um italiano falante compulsivo, é o maior elogio possível.
A chef Cenila Roussero competiu no Campeonato Mundial de Frango de Bresse ao Creme, que reúne anualmente alguns dos principais nomes da gastronomia internacional em torno de um ingrediente que a França trata como patrimônio nacional: o frango de Bresse, com certificação de origem controlada AOC desde 1957 e AOP desde 1996. Não é um campeonato qualquer, é o tipo de competição onde a tradição francesa pesa tanto quanto a técnica. Cenila chegou com cachaça, ingrediente da destilaria brasileira cujo CEO, Evandro Weber, foi direto ao ponto ao comentar o resultado: ver o destilado nacional sendo incorporado num dos pratos mais tradicionais da gastronomia francesa evidencia como a cachaça vem conquistando espaço em cozinhas de excelência internacional. E ela não só entrou na receita, como a receita ganhou.

Nos bastidores digitais, o resultado começou a circular em grupos de gastronomia e perfis especializados com aquela energia de print que passa de grupo em grupo antes de virar pauta. Chefs brasileiros com atuação internacional começaram a reagir nos comentários com o tipo de orgulho que só aparece quando alguém faz algo que todo mundo sabia que era possível, mas ninguém havia feito primeiro. O perfil da destilaria, evidentemente, aproveitou o momento com a velocidade de quem estava esperando exatamente por essa janela.

A leitura que me interessa aqui vai além da vitória individual. O frango de Bresse ao Creme é um prato que a França usa como símbolo de soberania gastronômica. Entrar nessa competição já exige coragem técnica. Entrar com um ingrediente brasileiro, num campeonato francês, com frango francês certificado, e vencer com essa combinação, é um movimento de posicionamento de produto que nenhuma campanha publicitária compraria com o mesmo impacto. A cachaça já havia conquistado reconhecimento como destilado em mercados europeus nos últimos anos, mas há uma diferença enorme entre ser aceita num bar internacional e ser incorporada numa receita vencedora de um campeonato com esse nível de exigência técnica e histórico. Cenila Roussero fechou esse ciclo com uma panela de creme e uma garrafa brasileira.
Eu só quero saber se os juízes franceses pediram a receita depois ou ficaram em negação profissional por mais alguns dias. Porque perder para a cachaça na própria cozinha é o tipo de coisa que exige um tempo razoável de elaboração emocional.