Cheguei em Madri arrasada, com aquela cara de quem atravessou o Atlântico dormindo torta. Pedi um café no lobby, subi para o quarto e liguei a televisão só de teimosia. Bastou trocar de canal duas vezes para entender que não existe outro assunto na Europa desde a madrugada. Vou dormir algumas horas, sigo para Ibiza, e, mesmo assim, consegui montar essa coluna antes do travesseiro.
O BTS informou que decidiu não submeter candidatura ao Grammy deste ciclo. Na nota, o grupo disse esperar que a música possa ser ouvida e amada por si só, em vez de dividida por região ou idioma, e agradeceu aos Armys. O álbum que ficou de fora é o Arirang, lançado neste ano. A premiação acontece em fevereiro de 2027, as inscrições abriram no começo de julho e fecham no fim de agosto. Ou seja, eles falaram com o prazo aberto, e não depois de perder nada.

O motivo tem nome e regulamento. Em junho, a Recording Academy anunciou cinco categorias novas, entre elas melhor performance de música pop asiática, voltada a trabalhos originários ou reconhecidos em mercados asiáticos que façam uso significativo de um idioma asiático. Entraram também melhor música latina, melhor performance vocal pop tradicional, melhor colaboração de R&B ou performance de dupla e grupo, e melhor performance de álbum folk. Parte do público leu a novidade como uma prateleira separada e reagiu na hora.
Agora leia a regra devagar, porque o detalhe está lá. A categoria exige uso significativo de idioma asiático. As duas músicas que renderam ao BTS as indicações mais celebradas no Grammy, aquelas que fizeram o grupo se apresentar no palco da premiação, foram cantadas em inglês. Ou seja, o próprio material que os levou à disputa principal talvez nem se encaixasse na caixinha nova. Nenhuma dessas indicações virou estatueta, aliás. Sete anos de indicação e nenhum troféu para levar para casa.
A reação dos fãs foi imediata. A tag agradecendo ao grupo entrou nos assuntos mais comentados do X, com gente comemorando a postura e dizendo que agora tem desculpa oficial para nunca mais assistir à cerimônia. Do outro lado, quem defende a categoria argumenta que ela dá visibilidade a artistas que jamais furariam a bolha principal. Os dois lados têm razão em alguma medida, e é justamente por isso que a briga vai durar. Até o fechamento desta coluna, a Recording Academy não tinha se pronunciado publicamente sobre a decisão do grupo.

Vou dormir pensando na cara de quem trabalha na organização da festa. Perder o grupo que enche timeline, vende cerimônia e entrega audiência global, e perder por causa de uma categoria criada justamente para agradar esse público, é o tipo de gol contra que rende reunião longa em sala fechada. A festa está marcada para fevereiro. A cadeira mais comentada da noite já está vazia desde julho.