Amores, a coincidência é daquelas que fazem a coluna parar. Valentino Garavani morreu no instante em que o Brasil deixava de ser apenas plateia do glamour romano para virar vitrine estratégica da Valentino Beauty. O vestido vermelho sempre foi sonho distante por aqui. Agora o batom e o perfume estão no nécessaire, no feed e na rotina.
Durante décadas, Valentino chegou ao Brasil pela televisão, pelas novelas de mansão, pelos tapetes vermelhos internacionais e por fotos de festivais europeus. O imaginário era claro. Festa grande, escadaria longa, vestido marcante e aquela ideia de luxo que parecia reservada a poucos. Esse repertório visual preparou o terreno para a virada atual, em que a marca troca a distância pela presença física no mercado de beleza.
A entrada da Valentino Beauty no país não aconteceu por acaso. O Brasil aparece nos relatórios globais como território forte para fragrâncias e maquiagem premium, com consumidor atento, vaidoso e completamente plugado em conteúdo digital. Perfume aqui não é acessório discreto, é identidade. Maquiagem virou linguagem cotidiana nas redes.
O carro-chefe dessa ofensiva é a linha Born in Roma, coleção inspirada na cidade natal do estilista. A narrativa mistura arquitetura clássica, juventude, atitude e um discurso visual carregado, pensado para circular bem em campanhas, vídeos curtos e fotos compartilháveis. O luxo deixa de ser contemplativo e passa a ser exibido.
Para fincar bandeira, a marca investiu em experiências que rendem imagem e conversa. Teve gelateria temática em shopping de alto padrão, ambientação inspirada em Roma e eventos pensados para gerar postagem, vídeo e aquela invejinha básica de quem não foi convidado. Jantares especiais e ações com criadores de conteúdo ajudaram a traduzir o universo Valentino para um público mais jovem e urbano.
Mesmo sem um time oficial de embaixadoras brasileiras, a marca já colhe frutos de aparições estratégicas. Influencers e atrizes nacionais surgem em tapetes vermelhos internacionais usando looks da maison e alimentam o desejo local. Cada foto circulando prepara o terreno para que perfume e batom funcionem como atalho possível para esse mesmo imaginário de luxo.
O famoso vermelho Valentino, que dominou vestidos, passarelas e capas de revista, reaparece agora em frascos, campanhas coloridas e produtos pensados para circular rápido. A estética continua reconhecível, só mudou o formato. Sai a distância simbólica, entra o consumo direto.
Assim, enquanto o fundador se despede, o Brasil assume papel central numa nova fase da marca. O legado de Valentino segue vivo, agora mais próximo, mais acessível e definitivamente instalado na cultura pop local, do feed ao nécessaire, com drama, cor e desejo do jeito que ele sempre gostou.