Amores , fazendo uma pausa entre uma pesquisa e outra aqui na Itália , quando me aparece essa notícia com cheiro de vitória silenciosa, sim, eu sei que eu odeio essa palavra, mas às vezes o fato vem de salto baixo e impacto alto. O Brasil foi escolhido para receber a MICCAI em 2028, uma das conferências mais importantes do planeta nas áreas de processamento de imagens médicas, inteligência artificial, visão computacional e cirurgias assistidas por computador. E já começo dizendo, isso aqui vale mais do que muito evento cheio de painel vazio e champanhe morno.
A conferência acontece em São Paulo e deve reunir ao menos 2,2 mil participantes de vários países, com cerca de 70% do público vindo do exterior. Não estamos falando de encontrinho simpático com powerpoint e coffee break de aeroporto. Estamos falando de um evento pesado, desses que colocam pesquisadores, médicos, engenheiros, estudantes e empresas de tecnologia no mesmo salão para discutir diagnóstico por imagem, robótica médica, planejamento cirúrgico e sistemas de apoio à decisão clínica. Traduzindo para a vida real, gente que mexe no futuro antes de ele ganhar slogan.
O dado mais gostoso dessa história é que será a primeira vez que a MICCAI acontece nas Américas. A candidatura brasileira, apoiada pela Embratur, pelo Visite São Paulo Convention Bureau e por pesquisadores da Unicamp, bateu cidades como Cidade do México e Toronto. Passei no aperitivo e já voltei com teoria, o Brasil adora ser tratado como promessa exótica, então dá um prazer especial ver o país ganhar na categoria competência, articulação e musculatura científica, em vez de ficar só vendendo praia, caipirinha e pôr do sol de folheto.
Também tem um lado bem menos perfumado e bem mais importante. Esse tipo de congresso movimenta hotel, restaurante, transporte, centros de convenções e a cadeia inteira do turismo de negócios, mas não para por aí. Traz visibilidade para grupos de pesquisa brasileiros, abre espaço para novas parcerias tecnológicas e ajuda a empurrar o país para uma conversa global em inovação e saúde. Em outras palavras, não é só turista de credencial, é reputação internacional com impacto econômico e científico de verdade.
Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e pensando como o Brasil gosta de subestimar as próprias vitórias inteligentes. Porque esse tipo de conquista não rende fofoca, não rende choro em reality e não rende casal terminando em camarote, mas rende algo bem mais raro, prestígio. Em Milão, eu olho para isso e penso com carinho e uma certa maldade cívica, talvez o país finalmente esteja entendendo que também pode exportar cérebro, e não apenas beleza de drone.