Boninho deixou a Globo no fim de 2024, após cerca de 40 anos na emissora e mais de duas décadas associado ao comando do Big Brother Brasil. Desde então, passou a atuar de forma independente e assumiu a criação de Casa do Patrão, reality da Record lançado em 2026, mas manteve uma marca antiga: o estilo duro, centralizador e pouco paciente com críticas.
Eu ainda estava no Cosme Velho amarrando o tênis de academia, com a garrafinha encostada na porta e o celular equilibrado em cima da cômoda, quando parei nessa figura. Porque Boninho pode até ter saído da Globo, mas a Globo claramente não saiu do Boninho. O homem deixou o crachá, mudou de emissora, trocou de casa, mas continuou falando como quem segura o controle remoto do Brasil inteiro.

O episódio mais recente veio durante a divulgação de Casa do Patrão. Em coletiva de imprensa, Boninho se irritou com uma pergunta de Fábia Oliveira, do Metrópoles, sobre semelhanças entre o novo programa e o BBB. A resposta veio atravessada. Ele perguntou se a jornalista fazia parte “do jurídico da TV Globo” e disse que não estava entendendo a pergunta. Traduzindo: tocar no BBB perto de Boninho segue sendo como bater na porta errada de uma sala onde ele ainda acha que manda.
A comparação, aliás, era inevitável. Casa do Patrão estreou na Record e no Disney+ como a nova aposta do diretor no mundo dos confinamentos. O formato tem participantes, eliminação, prêmio, convivência e dinâmica de poder. Boninho defendeu que todo reality tem semelhanças, mas a sombra do BBB entrou na sala antes dele terminar a frase.
E essa sombra é enorme. Na Globo, Boninho virou sinônimo de autoridade nos realities. Foi chamado de Big Boss, comandou o BBB desde o início, liderou No Limite, The Voice, Mestre do Sabor e outros formatos. Ao longo dos anos, também acumulou fama de exigente, explosivo e avesso a jornalista fazendo pergunta que não combina com o roteiro da festa.
O UOL já descreveu o diretor como generoso, workaholic, carrasco e temido nos bastidores. Uma reportagem lembrou até um áudio vazado do BBB 9, em que ele dava uma bronca pesada nas participantes Ana Carolina e Naiá por causa de um alicate. Era Boninho no modo voz de Deus, só que com a paciência de quem não foi avisado que também estava sendo ouvido.
No novo reality, essa persona continuou trabalhando. Nos primeiros dias de Casa do Patrão, comentaristas apontaram que o enredo do programa parecia menos “participantes contra participantes” e mais “Boninho contra o elenco”. As broncas do diretor chamaram tanta atenção que, em alguns momentos, ele parecia mais protagonista do que os confinados.

Eu peguei a chave, olhei para o espelho e pensei que Boninho talvez seja o único diretor de reality que sai dos bastidores e leva o bastidor junto para o palco. Ele não apenas cria formato. Ele cria tensão, cria hierarquia, cria medo de pergunta e cria manchete quando alguém ousa dizer “isso parece BBB”.
A grande questão não é se Casa do Patrão copia ou não copia o Big Brother. A questão é que Boninho passou tantos anos sendo o dono da voz, da bronca e da ordem que agora qualquer programa com ele vira também um teste sobre o próprio ego. Saiu da Globo, sim. Mas o trono, pelo visto, foi na mudança.