Já estou dentro do avião, com o cinto afivelado e a bolsa embaixo da poltrona, dando os últimos telefonemas antes que me mandem desligar tudo. Consegui encaixar uma chamada de vídeo às pressas, porque tem assunto que não espera pouso na Espanha. A comissária passou duas vezes. Eu fingi que não vi as duas.
O livro é uma biografia em formato de reportagem e percorre a vida do alagoano desde a infância em Maceió até a consagração dentro e fora do país. Aparece ali a influência decisiva de Dona Virgínia, mãe dele, e o peso das origens, da ancestralidade africana e da relação com a natureza na formação daquele jeito de compor que ninguém conseguiu copiar até hoje. Cinquenta anos de carreira condensados em 240 páginas.

O capítulo que vai render conversa em mesa de bar é o dos bastidores. O autor trata do verdadeiro significado por trás de “Flor de Lis”, conta a história da colaboração que quase aconteceu com Michael Jackson, resgata músicas censuradas durante a ditadura militar e apresenta composições inéditas. Sim, você leu certo. Quase aconteceu com Michael Jackson. Fiquei com essa frase entalada e mandei mensagem para duas pessoas antes mesmo do avião taxiar.
Tem também o momento em que tudo virou. Djavan descobriu o violão aos 16 anos e largou o sonho de ser jogador de futebol para seguir a música, e depois veio a mudança para o Rio de Janeiro. Existe uma linha do tempo alternativa em que o Brasil ganhou um lateral e perdeu “Oceano”. Prefiro esta aqui.
A apuração merece nota. Tiago Ramos e Mattos conversou com familiares do cantor, incluindo um sobrinho, a esposa dele e uma sobrinha-neta, e foi pessoalmente aos lugares importantes da infância em Maceió. Ele é doutor em Língua Portuguesa pela PUC-SP e já tinha escrito a biografia-reportagem de Silvio Santos. Quem consegue mapear o Silvio consegue mapear qualquer brasileiro.
O livro custa R$ 54,90 e está na Amazon. Vou embarcar, dormir umas horas e chegar em Ibiza com um exemplar digital no telefone, o que é a coisa mais fora de personagem que eu já fiz em julho. Da próxima vez que alguém me disser que Djavan é sinônimo de música de fim de festa, eu vou perguntar se essa pessoa sabe o que “Flor de Lis” quer dizer de verdade. E vou esperar em silêncio.