Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

Bianca Andrade usou tábua de passar como tripé e hoje mira R$ 400 milhões

A Boca Rosa completa 15 anos de internet com base de 50 tons e volta ao YouTube. E a meta de R$ 1 bilhão vem com uma condição que pouca gente notou.

Kátia Flávia

07/10/2026 8h19

Bianca Andrade completa 15 anos de carreira e celebra trajetória que começou com vídeos gravados de forma improvisada no Complexo da Maré - Créditos: @luisaferraz

Bianca Andrade completa 15 anos de carreira e celebra trajetória que começou com vídeos gravados de forma improvisada no Complexo da Maré – Créditos: @luisaferraz

Eu estava na Quinta da Regaleira, descendo a escada em espiral do Poço Iniciático e pensando na vida, quando o celular vibrou com foto de tapete rosa, valsa e bolo. No Brasil era segunda à noite. Aqui já era quase madrugada de terça, e eu, que já estava sem fôlego, quase sentei no degrau. Gente. Bianca Andrade fez festa de debutante para comemorar 15 anos de carreira.

A notícia: a festa foi em São Paulo, na segunda (5), com Fred Bruno, Linn da Quebrada, Giovana Cordeiro, Camilla de Lucas, Lorrane Silva e Kenya Sade no tapete rosa e show do Mumuzinho. No pacote veio o “Debute”, projeto que marca a volta dela ao YouTube depois de mais de três anos sem vídeo original. O canal tem 5,6 milhões de inscritos e mais de 370 milhões de visualizações. Hoje, terça (6), começa a venda da nova base líquida com 50 tons e de um corretivo com 16.

Agora senta, que eu fui atrás do começo. O apelido nasceu no Colégio Estadual Júlia Kubitschek, no Centro do Rio. Bianca misturava batom vermelho com lápis branco, inventava um rosa berrante e virou “a maluca da boca rosa”. Na hora de batizar o canal, cortou a maluca: “Acho que só Boca Rosa pega mais”. Instinto de marketing aos 16 anos, antes de saber que aquilo tinha nome. E ainda ensinava a curvar cílio com colher.

O cenário era caseiro. Em 2011, no quarto dela no Complexo da Maré, ela comprou uma filmadora com o dinheiro que ganhava de garçonete no bufê da mãe, pintou a parede, montou a luz sozinha e usou uma tábua de passar roupa como tripé. A mãe a chamava de MacGyver. Antes disso, ela também trabalhou como copeira e deu aula para crianças. E o detalhe que me fez largar o travesseiro da Piriquita: ela planejava a ordem dos vídeos num caderninho, primeiro pele, depois olhos, etapa por etapa. “Eu estava construindo uma conversa com quem estava do outro lado”, disse. Isso é estratégia de conteúdo antes de existir o termo.

Dois anos depois, foi chamada ao “Mais Você”. “Saí da favela para tomar café da manhã com a Ana Maria Braga. Não tinha nem celular com câmera para fotografar”, lembrou. Em 2017, entrou na lista Forbes Under 30. Em 2018, lançou a Boca Rosa Beauty com a Payot. Em 2020, o BBB levou a marca para muito além da bolha da maquiagem e o faturamento chegou a R$ 120 milhões. Ela também saiu do reality com rejeição e não fugiu do assunto: “Que bom que eu apanhei, porque trouxe uma lucidez que eu não tinha”, disse no “Conversa com Bial”. É raro famosa transformar cancelamento em aprendizado com esse jeito e sem drama.

Agora a parte que quase ninguém deu. A saída da Payot, em 2023, aconteceu no fim do contrato, sem briga e sem quebra de acordo. “Sempre quis ter marca independente”, afirmou. Ela tirou R$ 30 milhões do próprio caixa e lançou mais de 100 produtos no primeiro ano. Sócia mesmo é a mãe, Mônica, que tinha um bufê “pequenininho na favela, mas era referência de qualidade”. Foi a reclamação da Dona Mônica de que o pó solto “sujava tudo” que deu origem ao pó compacto, depois premiado pela Glamour. A transição custou um burnout, que ela mesma contou. Outro dado que contraria a fama de marca de internet: o e-commerce representa menos de 20% das vendas, porque base de 50 tons precisa ser testada na pele, na loja. E o campeão de vendas é a máscara de sobrancelha e cílios.

A meta é R$ 400 milhões em 2026 e R$ 1 bilhão até 2030, mas com uma ressalva que eu adoraria ver em mais nota de empresa: “Se não acontecer em 2030 e sim em 2035, tudo bem. Não vou sacrificar a alma da marca por ansiedade de número”. Ela também planeja abrir a empresa para investidores neste ano, fala em collab com uma gigante global e diz que a exportação para Europa e América Latina fica para depois de consolidar o Brasil. Sobre a cartela de 50 tons, foi direta: “Para lançar uma cartela de 50 cores, tem que ter dinheiro”. Primeiro lucro e caixa, depois expansão. Pouca empresária fala de dinheiro com essa clareza.

Subi a Regaleira inteira de volta, ofegante, pensando que a menina da tábua de passar planejou cada degrau no caderninho, enquanto eu não consigo nem planejar o horário do autocarro. Segura minha bica: a Europa está no plano dela, e eu já quero ver Boca Rosa nas lojas do Chiado.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado