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Kátia Flávia
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Bella Falconi e a alegria estranha de ver Wagner Moura perder

O comentário de Bella Falconi sobre a derrota de Wagner Moura no Oscar repercutiu menos pela piada e mais pelo que revelou. Em tempos de torcida organizada para o fracasso alheio, o incômodo não está no prêmio perdido, mas no aplauso dado à derrota.

Kátia Flávia

16/03/2026 9h30

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O comentário da influenciadora sobre a derrota de Wagner Moura no Oscar repercutiu negativamente nas redes (Foto: Reprodução/Internet)

Há um tipo de gente que transforma qualquer divergência em campeonato de aniquilação moral. Não basta discordar, não basta não gostar, não basta revirar os olhos e seguir a vida com a dignidade possível. É preciso torcer contra. E mais do que torcer contra, é preciso comemorar em praça pública quando o outro perde. Foi exatamente esse o gosto amargo deixado pelo comentário de Bella Falconi sobre Wagner Moura e o Oscar. Nem entro aqui no mérito político, ideológico ou no tribunal das afinidades eletivas de Instagram. O ponto é outro, bem mais feio e bem mais humano. Tem gente viciada em transformar antipatia em festa.

O que choca não é um brasileiro perder o Oscar. Brasileiros perdem o Oscar, a Copa, a paciência e a compostura com frequência quase folclórica. O problema é o prazer exibido diante da derrota. Esse pequeno carnaval íntimo montado em cima do fracasso de alguém. Porque uma coisa é não admirar Wagner Moura. Outra, muito mais reveladora, é celebrar o tombo como se ele lavasse a alma, quitasse boleto emocional e ainda servisse de sobremesa. Não serve. Fica só a pequenez mesmo, exposta, escancarada, quase fluorescente.

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Foto: Reprodução/ instagram

Existe algo de muito empobrecedor nesse impulso de achar que o revés do outro é automaticamente uma vitória pessoal. Como se o mundo funcionasse numa lógica de recreio rancoroso, em que, se o menino que você não gosta tropeça, sua existência ganha sentido. Não ganha. Continuamos todos pagando imposto, envelhecendo mal e tentando parecer mais evoluídos do que realmente somos nos comentários da internet. O prêmio não vir para Wagner Moura não melhora em nada a vida de quem resolveu rir disso. Não ilumina caráter, não embeleza espírito, não dá sequer um bom texto. Dá, no máximo, um print constrangedor e essa sensação desagradável de que a miséria simbólica anda postando com muita autoestima.

Também me incomoda esse costume de reduzir qualquer figura pública a um avatar de guerra cultural. A pessoa deixa de ser ator, artista, profissional, ser humano, e vira boneco de vodu ideológico. A partir daí, qualquer derrota merece fogos, qualquer humilhação parece pedagógica, qualquer fracasso vira entretenimento. É um jeito muito pobre de olhar o mundo e, convenhamos, bastante cafona. Porque no fundo essa comemoração nem fala de cinema, nem de Oscar, nem de patriotismo, nem de coerência. Fala de ressentimento. E ressentimento, quando se fantasia de opinião espirituosa, continua sendo ressentimento, só que de salto alto e filtro bonito.

No fim, o comentário que tenta diminuir Wagner Moura acaba contando mais sobre quem escreveu do que sobre quem perdeu. E talvez esse seja o detalhe mais constrangedor de todos. Tem derrotas que doem menos do que certas vitórias morais inventadas. Wagner não levou a estatueta, paciência. Já quem aplaude o fracasso alheio como quem brinda uma conquista própria talvez tenha perdido uma coisa bem mais difícil de recuperar, a noção.

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