Eu vou falar baixinho só para quem sabe ler grade de programação como quem lê contrato. O fim do MasterChef Profissionais não caiu do céu nem veio embalado em drama artístico. Foi cálculo frio, de planilha aberta e coração fechado. A MasterChef Brasil continua firme, multiplicada por três em 2026. O Profissionais saiu de cena como produto premium encostado no fundo da loja.
A mensagem da Band é clara até para quem queima arroz. O reality que interessa hoje é aquele que vende panela, liquidificador, marca de mercado, cozinha planejada e parcelinha sorridente no cartão. Chef estrelado com currículo de restaurante chique até emociona a bolha gourmet, mas não fecha pacote comercial do mesmo jeito.
A emissora confirmou que não haverá nova edição do Profissionais em 2026 e resolveu manter o MasterChef amador praticamente sem respirar na grade. Serão três temporadas ao longo do ano, uma maratona que transforma o programa em esteira contínua de audiência e faturamento. Pode até haver desgaste no ibope, mas o formato ainda paga as contas da casa.
A estreia da décima terceira temporada já está marcada para maio e deve atravessar o calendário até o início de 2027. O Profissionais não morreu, só foi empurrado para fora da gôndola principal. Sai o rótulo premium, entra o campeão de vendas com etiqueta grande.
O MasterChef preservado é o mais palatável para anunciante. Amador carismático, bancada tomada por marcas, prova desenhada em cima de um produto específico, QR code piscando na tela. A gastronomia vira figurante educada. O protagonismo fica com o merchandising coreografado.
Eu olho e penso. Isso virou um grande corredor de supermercado televisionado, com desafio que funciona como vitrine e jurado que precisa comentar sabor sem atrapalhar a exposição do logo. A alta cozinha aparece como tempero elegante, mas quem sustenta o prato são as marcas.
O Profissionais sempre carregou o selo de versão respeitada, prova técnica, elenco caro e exigência máxima. Só que fora da bolha, a audiência não acompanhou o discurso. A última temporada fechou com média de 1,8 ponto e final em 2 pontos, o pior desempenho do formato na emissora.
Produzir chef formado custa mais. Prova complexa, gravação longa, cachê diferente. O amador entrega identificação, meme, história pessoal e venda melhor o pacote comercial. Mise en place impressiona, mas não vira ação de varejo.
Com o Profissionais fora do ar, a TV aberta perde uma das raras vitrines para cozinheiro de carreira. Aquele que usa o reality como trampolim para restaurante próprio, curso e contrato sério. Em troca, cresce o personagem do amador carismático, rápido para virar influenciador, publi de panela e rosto de campanha antes de dominar técnica clássica.
Isso muda o imaginário de quem assiste. Cozinhar bem passa a significar improviso bem editado, história de vida emocionante e simpatia diante da câmera. A alta gastronomia segue existindo, só que fora do foco principal da emissora.
Esse corte não começou agora. A Band já havia encerrado o MasterChef Júnior e o MasterChef Mais em 2024, citando desgaste e custo de produção. A própria Ana Paula Padrão já comentou que a versão infantil exigia estrutura extra e orçamento mais pesado.
No cenário atual, a escolha foi concentrar energia no formato que ainda entrega equilíbrio aceitável entre audiência e faturamento. Em 2026, o recado está servido quente. Na Band, MasterChef virou ferramenta comercial com avental bonito. Quem procura consagração gastronômica vai ter que buscar outro endereço.