Estava aqui em Milão terminando meu suco quando o telefone começou a vibrar com o áudio do Guto Zacarias chegando pelos canais mais bem informados da minha rede. Ouvi. Pausei. Porque tem coisa que você escuta e simplesmente não consegue fingir que cabe dentro do normal.
O deputado estadual paulista, um dos rostos mais ativos do MBL, agora enfrenta uma gravação em que uma voz identificada como a dele orienta sua ex-companheira sobre como realizar um aborto em São Paulo. Com detalhes operacionais: menciona clínicas em áreas nobres da cidade, descreve o procedimento como algo praticamente sem sangue, duração de 20 a 25 minutos, e ainda questiona os motivos dela para não fazer. Tem roteiro mais elaborado que palestra de especialista em saúde reprodutiva.
O material foi obtido pelo canal Meteoro Brasil em colaboração com Pedro Zambarda e Sophia La Banca, e chega para reforçar a denúncia que já tramitava sob sigilo no Ministério Público de São Paulo. O MP classificou a conduta como violência psicológica com base na Lei Maria da Penha, depois que a ex-companheira relatou pressões e chantagem emocional durante toda a gestação. Após a denúncia vir a público, ela recuou e disse que agiu por impulso. O Ministério Público, porém, toca o processo com independência da posição dela agora.
O detalhe que ninguém deveria deixar passar é a referência ao Jardins. O áudio não fala de qualquer alternativa: fala de clínica de alto padrão, especialista, procedimento discreto, bairro certo. O argumento construído na gravação é literalmente o de que, em São Paulo, com o médico certo, dá para resolver sem drama e sem risco. Guto Zacarias figura como opositor do aborto legal em todos os seus pronunciamentos públicos. No áudio, o assunto é tratado com uma desenvoltura bem diferente.
Até o momento da publicação, o deputado não apresentou manifestação formal sobre o conteúdo da gravação. O processo segue em segredo de Justiça, o que limita o acesso ao contexto integral das provas. Mas o áudio existe, a voz existe, e o silêncio de um parlamentar do MBL diante de uma gravação própria indicando clínica clandestina está sendo interpretado, lá fora, com o peso que merece.