Eu estava sentada nas pedrinhas de Cala Salada, aquela prainha pequena do sul de Ibiza, quando o telefone tocou e uma fonte de São Paulo começou a falar rápido demais. Ouvi duas frases e larguei o café. Tem manhã em que a coluna para de rir.
O ataque aconteceu por volta das 5h50 de sábado, 1º de agosto, dentro da fábrica da Bombril em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, às margens da Via Anchieta. Morreram o conferente José Guilherme Victoriano de Moura, de 54 anos, o supervisor Edvaldo Santos da Silva, de 44, e o operador de empilhadeira Douglas de Souza Vieira, de 39. Três homens que estavam trabalhando num sábado de manhã como em qualquer outro dia.
O autor foi identificado como Claudio Henrique da Silva, de 33 anos, operador de empilhadeira terceirizado pela TPC Logística, a mesma empresa que empregava as vítimas. Segundo o boletim de ocorrência, ele estava de folga e foi até a unidade. Douglas teria sido atingido ao tentar conter o agressor, informação que consta nos registros policiais e que diz muito sobre o tipo de trabalhador que ele era.
Testemunhas relataram à Polícia Civil que Claudio sofria bullying por parte de duas das vítimas, e essa é a linha inicial de investigação. Nada disso está confirmado oficialmente. A apuração segue por inquérito com a equipe de homicídios da DEIC de São Bernardo do Campo, que vai verificar se existia registro anterior de conflito, queixa formal ou qualquer aviso à chefia.
Contido por funcionários e preso pela Polícia Militar ainda na fábrica, Claudio foi levado ao 2º Distrito Policial e morreu na carceragem. A Secretaria da Segurança Pública informou que ele tirou a própria vida, e a Corregedoria da Polícia Civil apura as circunstâncias da morte sob custódia. São quatro famílias enterrando alguém neste fim de semana.
A Bombril divulgou nota repudiando o ato, disse que acionou os órgãos responsáveis e fez questão de deixar claro em cada parágrafo que autor e vítimas eram terceirizados contratados pela TPC, não empregados diretos. A TPC lamentou o ocorrido, afirmou que presta assistência às famílias e que colabora com as autoridades. Duas empresas, duas notas, e nenhuma delas responde ainda a pergunta que a investigação vai ter que responder: se alguém dentro daquela operação sabia do que estava acontecendo antes de sábado de manhã.