Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

Ariadine Netto transforma cegueira em drama chique com cavalos e alma

Sim, meu amor, até hipismo virou plot twist literário. Ariadine Netto entra na arena da sensibilidade e entrega um romance que pisa firme no coração do leitor.

Kátia Flávia

19/02/2026 11h40

ariadine netto 3

A autora Ariadine Netto. Foto: divulgação

Eu já li muita coisa nessa vida, mas confesso que fiquei olhando pro teto depois de conhecer O percurso que os cascos enxergam por mim. É daqueles livros que chegam de mansinho, te dão um tapinha educado no ombro e, quando você vê, já tomou um tombo emocional digno de final de reality show.

A autora da vez, Ariadine Netto, pega um tema que muita gente evita, a perda da visão, e resolve tratar isso com a elegância de quem sabe que dor não precisa gritar para ser profunda. Nada de pena, nada de discurso professoral. Aqui tem carne, instinto, suor de arena e um cavalo que vira personagem principal sem pedir desculpa.

O protagonista, Daniel Oliveira, era o prodígio do hipismo, o menino dourado da arena, aquele que todo mundo apostava fichas e aplausos. Um acidente muda tudo e o sonho de integrar a Confederação Brasileira de Hipismo vira fumaça. A cegueira entra em cena e bagunça identidade, planos e aquela certeza arrogante de quem achava que sabia exatamente quem era.

E é aí que entra Conrado, o cavalo. Sim, porque nesta coluna cavalo também vira protagonista e eu respeito. A relação entre os dois foge do clichê terapêutico. Tem tensão, entrega, medo e uma confiança que se constrói no tato, no som, no ritmo da respiração. Ariadine descreve o adestramento paraequestre como se fosse uma coreografia secreta, daquelas que só quem vive entende.

capa
Capa – O percurso que os cascos enxergam por mim.

Tem música misturada à montaria, tem braille atravessando a narrativa, tem silêncio que pesa mais que discurso inflamado. Daniel passa a se guiar pelo instinto, pela partitura gravada na cabeça, pelo som dos cascos batendo no chão como quem marca o tempo de uma nova vida. É bonito e desconfortável, daquele jeito que literatura boa costuma ser.

O livro não romantiza sofrimento nem tenta vender superação de vitrine. A autora encara a dor de frente, mas também mostra que ela não precisa ser um ponto final. O texto segue firme, sem firula, e constrói uma história sobre reconstrução do sujeito quando o controle escapa das mãos. E vamos combinar, isso serve pra qualquer um que já perdeu o chão, mesmo sem cair de um cavalo.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado