Paulo Vieira detonou publicamente a sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional e não poupou nem o candidato nem a condução de César Tralli e Renata Vasconcellos. Em publicação no X, o humorista escreveu: “Ao entrevistar um mentiroso, se não interromper a mentira e dizer a verdade de imediato, vira desserviço. Faltaram muitas interrupções e explicações”.
Eu tinha acabado de fechar a porta da cozinha e fui para a sala separar as revistas que estavam empilhadas na mesa de centro quando li aquilo. Paulo Vieira, contratado da Globo, puxando a orelha da própria emissora em praça pública? Parei com a revista de decoração aberta na mão. Porque uma crítica dessas não chega de chinelo; ela chega de salto alto, microfone ligado e sem vontade nenhuma de pedir desculpa.
O alvo central foi a resposta de Flávio sobre os recursos destinados ao filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Questionado sobre o vínculo com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, o senador disse que não cabia a ele divulgar detalhes do contrato e sustentou que a relação aconteceu de boa-fé. Ele também nega irregularidades.

Paulo não engoliu a explicação. “Por exemplo, ouvir calado o cara justificar ter recebido dinheiro sujo roubado dos aposentados com ‘pelo menos não usei Lei Rouanet’ sem fazer nenhuma ponderação é foda”, escreveu. A frase dele se refere a suspeitas investigadas sobre Vorcaro e o Banco Master; não é uma conclusão judicial sobre Flávio Bolsonaro.
E foi aí que a crítica deixou de ser só comentário de televisão e virou aquele constrangimento que faz até o sofá ficar torto. Porque Paulo não disse que a entrevista foi apenas fraca. Ele disse que, na opinião dele, a falta de contestação imediata transformou o espaço jornalístico em “desserviço”. É uma palavra pesada, especialmente vinda de alguém que trabalha na casa.
O humorista ainda ironizou a quantidade de recuos e explicações dadas pelo senador durante a conversa. “Tudo que ele disse em toda a vida dele ou ele não quis dizer ou disse mas não disse dizendo”, disparou. “Pelo que eu entendi, nenhuma outra frase dele antes dessa entrevista é válida, é um novo homem, tá dizendo as primeiras palavras hoje.”

Flávio Bolsonaro foi questionado no JN sobre a ligação com Vorcaro e o financiamento de Dark Horse, que está no centro de apurações sobre recursos ligados ao Banco Master. O senador declarou que não cometeu irregularidades e que o filme não usou verba pública nem Lei Rouanet.
Eu fechei a revista, deixei as outras de lado e pensei que o domingo mal tinha começado para o tamanho do incêndio. A sabatina já tinha rendido discussão nas redes; agora ganhou um puxão de orelha interno, com nome, sobrenome e aspas que ninguém consegue desler.
Paulo Vieira não pediu demissão de ninguém, não anunciou ruptura com a Globo e não falou em censura. Fez outra coisa: cobrou mais confronto jornalístico diante de falas que considerou falsas. E, quando um contratado da emissora diz que faltou interrupção ao vivo, minhas filhas, a fofoca entra na redação pela porta da frente.