Antônia Fontenelle decidiu entrar para a política partidária e descobriu, em tempo recorde, a pior parte da experiência brasileira: o eleitor que trata legenda como religião e político como santo de procissão. Sua filiação ao PSDB não provocou debate sobre propostas, prioridades ou projeto de país. Provocou chilique. E talvez esse seja o retrato mais deprimente do Brasil atual.
Ao reagir às críticas, Antônia fez o que pouca gente com ambição eleitoral tem coragem de fazer: trocou o marketing pela pergunta incômoda. Enquanto uma parte da internet espuma porque ela assinou com o PSDB, ninguém parece especialmente inflamado com saneamento básico, segurança pública ou qualquer outra coisa que preste. O brasileiro médio, ao que tudo indica, terceirizou a própria sobrevivência e agora passa o dia defendendo partido como quem protege marca de energético.
O ponto mais interessante da fala dela não é a troca de sigla. É o desprezo aberto por essa dramaturgia patética da fidelidade ideológica de condomínio. Antônia praticamente diz que poderia estar em qualquer partido e que o foco deveria ser outro: quais são as bandeiras, o que será feito, onde está a entrega, quem vai resolver a vida de quem paga imposto e coleciona decepção. É um raciocínio quase ofensivo de tão racional.
A estocada final vem quando ela mira a extrema-direita e faz a pergunta que seus órfãos digitais odeiam ouvir. O que esses deputados fizeram, de fato, pela vida de quem os defende com a fúria de um estagiário de guerra cultural? Além de lacrar, gravar vídeo, posar para corte e distribuir valentia cenográfica, muito pouco. E quando ela puxa o PL para a conversa e questiona o que o partido fez pelo próprio Bolsonaro, a fantasia da tropa virtual começa a descascar com uma facilidade quase constrangedora.
No fim, Antônia talvez tenha cometido o pecado mais imperdoável da política brasileira contemporânea. Ela lembrou que partido é meio, não fim. E num país em que tanta gente já desaprendeu a brigar por si mesma, dizer “dane-se a sigla” soa quase como heresia. Ou, pior para os fanáticos, soa como lucidez.