Eu descia a pé pela marginal de Cascais depois do almoço, com o mar batendo forte lá para os lados da Boca do Inferno, quando uma amiga do Rio me ligou pedindo que eu lesse um documento na hora. Sentei num banco de frente para a baía e precisei de um bom tempo para chegar à última página.
Segundo a notificação, endereçada ao jurídico e à equipe de Confiança e Segurança do Google Brasil, tudo começou na terça (6), numa transmissão ao vivo monetizada do canal Jennifer Prioli, depois publicada com o título “Eleições 2026: candidatos lixos que não foram eleitos”. Durante a live, Jenny exibiu em tela cheia, sem desfoque, um vídeo em que o caçula de Antônia aparece chorando ao lado da mãe. A defesa afirma que ela chamou o menino de “imbecil”, disse que se tratava de uma criança “insuportável e sem noção” e destacou uma pulseira rosa que ele usava, em tom de insinuação sobre a sexualidade dele.
O documento descreve um chat tomado por centenas de mensagens de deboche, insultos homofóbicos dirigidos à criança e até anúncio de agressão na escola. De acordo com a notificação, a youtuber não moderou nada, não interrompeu a exibição e gargalhou com as mensagens, mesmo depois de espectadores avisarem que expor o menino era ilegal. Enquanto isso, a tela mostrava chave Pix, QR Code de doação, mensagens pagas e uma meta de arrecadação que bateu 195% do objetivo, R$ 1.556,85.
Na quinta (8), depois da repercussão, Jenny editou o vídeo e cortou o trecho. Os comentários continuam no ar, alguns com o nome da criança, outros apontando os minutos exatos da cena apagada, e há quem debocha abertamente da ação judicial. A família já entrou com medidas cíveis e criminais, que correm em segredo de justiça; a notificação ao Google segue em paralelo e cobra que a plataforma aplique as próprias regras de segurança infantil, assédio e discurso de ódio.
A advogada goiana Layane Alves, que assina o pedido, se apoia no artigo 227 da Constituição, nos artigos 17 e 18 do ECA e num precedente do STJ de 2021 segundo o qual conteúdo ofensivo a criança deve sair do ar assim que a plataforma é notificada, sem esperar ordem judicial. Cita ainda o julgamento do STF de junho de 2025 sobre o dever de cuidado das redes. Os pedidos incluem remoção de todos os comentários sobre o menino, retirada de cortes e reenvios, preservação por um ano do vídeo original, do chat e dos dados de monetização, análise do canal com possível encerramento e, até a conclusão, suspensão da monetização e das lives.
Eu sempre achei pejorativo ficar discutindo a sexualidade de adulto, imagina a de um menino de 10 anos usado como atração de live para passar o chapéu. Briga política se resolve no voto, e criança chorando ao lado da mãe agora virou prova em processo. O YouTube tem 48 horas para mostrar se as regras que cobra dos criadores valem também quando a audiência está pagando. O espaço segue aberto para Jenny Prioli e para o Google se manifestarem.