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Kátia Flávia
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Antonia Fontenelle cobre estreia de “Silenced” em Sundance e mostra mulheres silenciadas por processos de difamação

Convidada para cobrir o documentário no festival, apresentadora destaca a relevância da obra que expõe como denúncias de abuso se transformam em armas judiciais contra mulheres. O Festival começou no dia 22 de janeiro e vai até dia 1 de fevereiro.

Kátia Flávia

27/01/2026 14h00

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Antonia Fontenelle ao lado de Jennifer Robinson durante a cobertura da estreia mundial do documentário “Silenced” no Festival de Sundance.

A estreia mundial do documentário “Silenced”, no Festival de Cinema de Sundance, ganhou um olhar engajado de Antonia Fontenelle, que foi convidada a realizar a cobertura do longa no último sábado (24).

A produção, dirigida por Selina Miles, integra a categoria de documentário mundial e expõe um fenômeno cada vez mais recorrente: mulheres que, ao denunciarem abusos e violências de parceiros, passam a enfrentar processos milionários de difamação que as empurram para o silêncio, o desgaste emocional e a quase falência.

Durante a cobertura, Antonia entrevistou a diretora do filme, Selina Miles, e a advogada internacional de direitos humanos Jennifer Robinson, conhecida por atuar em casos de grande repercussão, como o de Amber Heard, e mulheres cujas histórias atravessam o documentário, como a ativista colombiana Catalina Ruiz-Navarro, editora da revista latino-americana Volcánica.

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Baseado na obra Mulheres Silenciadas, de Jennifer Robinson, o documentário aborda o uso de processos de difamação contra mulheres.

“Silenced” parte do livro “Mulheres Silenciadas”, escrito por Robinson em 2023, e revela como as leis de difamação nos EUA têm sido usadas de forma estratégica contra mulheres que falam publicamente sobre violência de gênero, assédio e violação. O filme acompanha relatos de mulheres que sofreram condenações financeiras severas após processos judiciais movidos por homens denunciados por elas.

Na apresentação do documentário em Sundance, Jennifer Robinson destacou que, no cenário pós-#MeToo, o ato de falar passou a ter um custo alto. “Vimos mulheres quebrarem o silêncio, falando publicamente sobre a violência de gênero. E o que vimos, depois, foi o acusado apresentar uma queixa de difamação a dizer: ‘Isto não é verdade, é difamatório, e vou processá-la por muito dinheiro’”, afirmou.Segundo ela, muitas clientes foram alertadas de que denunciar poderia “levar a maioria das mulheres à falência”. “A pergunta que faço neste filme é: ‘O que significa liberdade de expressão se não podemos nos dar ao luxo de a defender?’”, completou.

Antonia Fontenelle explica que a escolha por cobrir “Silenced” foi imediata durante esse segundo ano de participação no festival. “Quando sai a lista de filmes eles me enviam e eu escolho o que me interessa cobrir. Quando li a sinopse do Silenced e vi que o caso da Amber Heard e Johnny Depp era uma das histórias logo pedi pra cobrir”, contou. Segundo ela, a experiência foi além da expectativa. “Me deparei com mulheres maravilhosas, Selina, a diretora, Jennifer, a advogada da Amber e personagem principal no roteiro, e de quebra conheci Catalina Ruiz-Navarro, uma delícia de pessoa.”

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Apresentadora brasileira destaca a relevância social do documentário.

A apresentadora destaca ainda a proximidade criada com as entrevistadas e a importância de ampliar o alcance do debate. “Na verdade, todas elas são muito queridas e acessíveis, troquei contato com a Jennifer e vou conecta-la com a Walkiria Barbosa, dona do Festival do Rio, o Brasil precisa conhecer o outro lado dessa moeda”, afirma.

Sobre a entrevista com Jennifer Robinson, Antonia descreve um encontro marcado pela generosidade e também comenta sobre os desafios da comunicação em outro idioma e o impacto das histórias relatadas. “Com Jennifer foi muito especial, detectei nela uma generosidade ímpar, atenciosa. Ela relatou o processo de difamação contra a Amber, que foi ameaçada de morte. E que mesmo quando elas foram vitoriosas no Reino Unido, a partir das provas, o Jonny Depp conseguiu reverter isso nos Estados Unidos e a Amber saiu de vilã da história. Uma mentira repetida por muitos pode virar uma verdade”, conta.

A ativista Catalina Ruiz-Navarro, que também integra o documentário, deixou uma impressão marcante. “Catalina é uma delícia de pessoa, simpática, uma mulher doce e forte ao mesmo tempo. Este ano eu elejo Silenced como a grande surpresa do festival”, afirmou Antonia, que revelou ainda ter sido convidada para o tapete vermelho da produção.

Para Fontenelle, o documentário tem uma relevância que ultrapassa o cinema e provoca reflexão sobre o preço de falar a verdade. “Esse documentário é de extrema importância, mostra uma advogada que atravessou junto com sua cliente uma tempestade midiática de difamação, assédio processual, uma verdadeira distorção dos fatos”, disse. Antonia acrescentou ainda que sente uma identificação com o tema: “Guardada suas devidas proporções, eu sofro isso desde que meu marido faleceu e quando me posicionei sobre a política do meu país a coisa só piorou. Não é fácil, há quem desista de tudo e se dê por vencida e há quem enfrente de cabeça erguida e não desista até provar que contra fatos não há argumentos, essa sou eu.”

“Silenced” promete entrar na rota de debates em festivais e entre o público internacional, questionando não apenas os limites legais da difamação, mas a própria noção de liberdade de expressão em tempos de alta exposição midiática.

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