A morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, trouxe de volta uma entrevista em que a atriz criticou a televisão atual, as novelas modernas e parte da nova geração de atores. Em conversa com a Folha, em 2023, a veterana afirmou que nem todo mundo que chega à teledramaturgia tem vocação para o ofício.
Eu ainda estava na cozinha do Cosme Velho, com a água fervendo e a primeira notícia da manhã atravessada na garganta, quando reli Laura falando sem medo, do jeito de quem passou por rádio, TV ao vivo, novela em preto e branco, Globo em cores e não devia mais satisfação a ninguém.

“Tem gente que devia fazer outras coisas porque não nasceu para aquilo. [Estão lá] por ignorância, por besteira. Porque acham que sabem fazer. Não, você percebe se pertence ao meio”, disse Laura à Folha. A frase voltou a circular após sua morte porque resume uma coisa que ela tinha de sobra: autoridade para falar de atuação sem pedir licença.
Laura morreu às 23h24 de segunda-feira (17), em casa, em São Paulo, de causas naturais, segundo o bisneto Fernando Faria. O velório acontece nesta terça-feira (18), das 8h às 14h, na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo, em cerimônia fechada ao público, com homenagens permitidas na parte externa.
A crítica da atriz não parava nos colegas mais jovens. Laura também dizia preferir as novelas de antigamente e reclamava da tecnologia que tomou conta dos bastidores. “Não gosto de tecnologia. Enche o saco”, afirmou. Para ela, tudo que era técnico ficava frio demais, cortando o impulso natural da cena, do gesto e da fala.
E eu entendo o que ela queria dizer. Laura veio de uma escola em que o ator segurava a cena no corpo, na voz e no susto do ao vivo. Começou no rádio aos 15 anos, migrou para a TV Tupi em 1952 e viu a televisão brasileira nascer quase sem manual. Não era só interpretar. Era inventar uma linguagem enquanto a câmera aprendia a existir.
Na entrevista, ela também disse que os enredos ficaram mais presos. “Hoje tem muita censura. Nas falas, nos gestos, em tudo”, reclamou. A veterana não falava como quem queria parar o tempo, mas como quem sentia falta da ousadia de uma TV feita com menos aparato e mais risco.
Ao mesmo tempo, Laura reconhecia mudanças positivas. Via com naturalidade o avanço de protagonismo para pessoas negras e LGBTQIA+ e dizia que, para ela, “é tudo igual”. A crítica dela era menos sobre inclusão e mais sobre vocação, entrega e verdade em cena.

Eu desliguei o fogo, deixei a xícara intocada na pia e pensei que talvez essa fosse a força de Laura: ela podia ser dura porque viveu o suficiente para não confundir opinião com ressentimento. Fez mais de 100 trabalhos, passou por Mulheres de Areia, A Viagem, Explode Coração, Caminho das Índias, Chocolate com Pimenta e A Dona do Pedaço. Recebeu homenagens, estrela em calçada, contrato vitalício com a Globo e ainda dizia: “A gente se aposenta quando vai embora”.
Laura foi embora. Mas deixou, além dos personagens, esse recado incômodo para uma televisão que às vezes confunde presença com alcance, interpretação com engajamento e ator com número de seguidores. Ela não falou baixo. Nem precisava.