Eu estava só observando, de copo na mão e olho clínico ligado, quando a cena virou filme. O Bloco da Anitta correndo solto no Circuito Preta Gil, aquele mar de gente fervendo no Centro do Rio, e de repente a música para. Silêncio tenso de Carnaval. Quando isso acontece, meu amor, é porque vem coisa grande.
Anitta pega o microfone e vira síndica da rua. Sem drama ensaiado, sem discurso fofo. Ela manda abrir espaço, chama a polícia, aponta o caminho e ainda puxa aplauso. Tudo rápido, tudo no improviso, tudo com aquela autoridade que só quem domina multidão tem. Cantora ali não estava, era gerente geral do bloco.
O mais delicioso da cena é o contraste que nem precisa ser explicado. Carnaval costuma ser bagunça organizada. Ali virou ordem organizada por quem estava em cima do trio. A multidão obedece, a polícia passa, celular aparece. Prestação de serviço em pleno asfalto quente, com glitter no ar e suor escorrendo.

Eu adoro quando artista entende o próprio tamanho. Anitta sabe que o microfone dela vale mais do que grade, sirene e apito juntos. Ela usa e resolve. Não faz cena pra vídeo bonito, faz porque funciona. O ladrão perde o palco, a polícia ganha palmas e o público entende o recado.