Eu estava aqui, já meio cansada desse entretenimento que acha que suspense é só gente de capuz e trilha grave, quando o Globoplay me vem com Angelique Boyer servindo romance sobrenatural em embalagem mexicana. Aí eu acordo na hora, claro. Porque basta me prometer amor atravessando encarnação, mistério de outras épocas e heroína tendo visão do além que eu viro auditório de mim mesma.
O fato é o seguinte. O Estranho Retorno de Diana Salazar estreia na quinta-feira, 26, no Globoplay, com todos os episódios da primeira temporada de uma vez. A produção revisita a história de 1988 em versão atualizada e acompanha Diana, vivida por Angelique Boyer, uma jovem que começa a enxergar flashes de uma vida passada. No meio disso, ela se aproxima de Mario, papel de Sebastián Rulli, sem imaginar que os dois já viveram um romance interrompido tragicamente em outra época. Minha filha, isso já nasce com cheiro de vício.
O bastidor pop aqui também ajuda bastante, porque Angelique não chega como atriz qualquer perdida no catálogo. Ela vem carregando aquele peso de estrela mexicana que o público brasileiro conhece, comenta e respeita desde os tempos de Rebelde. Isso faz diferença, sim. Streaming adora vender novidade, mas quando a novidade vem com rosto conhecido, trauma romântico e uma certa vocação para o melodrama, o clique ganha outra temperatura. É nostalgia internacional com perfume de novela que sabe exatamente o que está fazendo.
E a trama, convenhamos, entende muito bem a nossa fragilidade emocional. Não basta ser romance. Tem que ser romance com vida passada, rival, tragédia, século XVIII, presentão e passado se intrometendo na agenda da protagonista como ex mal resolvido com poderes ocultos. Irene, a vilã que já atrapalhava esse amor em outra encarnação, entra justamente para lembrar que o universo pode até girar, mas a inimiga de um casal nunca perde o endereço. Eu acho isso profundamente elegante, no sentido mais folhetinesco da palavra.
Também gosto do fato de a série não ter vergonha do sobrenatural. Em vez de fingir modernidade envergonhada, ela abraça visões, reencarnação, paixão interrompida e memória que escapa do tempo com convicção. E isso combina com o gênero, porque novela boa, minha gente, não precisa pedir desculpa por ser dramática. Precisa só ser envolvente, bonita e emocionalmente irresponsável na dose certa. A mexicana parece ter entendido o briefing com precisão cirúrgica e delineador intacto.
No fim das contas, o Globoplay entrega uma estreia que conversa com duas fraquezas muito legítimas do público, Angelique Boyer e sofrimento amoroso com componente místico. Eu, sinceramente, acho um acerto. Porque sempre haverá espaço para gente apaixonada, assombrada e presa a uma história que começou séculos antes do wi-fi. E cá entre nós, tem amor que mal sobrevive a um domingo. Se esse aí atravessou encarnação, já merece minha audiência.