O príncipe Dom Rafael de Orleans e Bragança pode perder seus direitos dinásticos caso se case com a italiana Margherita delle Piane. O motivo é que Dom Bertrand, atual chefe da Casa Imperial do Brasil, anunciou que não dará autorização para a união, já que a noiva não pertence a uma casa real reinante ou ex-reinante, como exigem as tradições da família.
Eu estava na sala tentando transformar a mesa de reunião em algo minimamente respeitável, empurrando uma pilha de papéis com a mesma fé de quem empurra problema para depois, quando apareceu essa novela imperial. Parei com um marca-texto na mão e pensei: “Brasil sem monarquia desde 1889 e ainda tem gente perdendo trono imaginário por amor”. Minha filha, nem Walcyr Carrasco ousaria tanto sem botar uma tia rica desmaiando no salão.

Dom Rafael, de 40 anos, se declarou apaixonado por Margherita, de 38, em entrevista à revista francesa “Point de Vue”. Ela vem de uma família considerada nobre em Gênova, na Itália, mas isso não basta para a regra dos Orleans e Bragança. Para manter a posição na linha sucessória, o casamento precisaria ser considerado dinástico, ou seja, feito com alguém de uma casa real reconhecida.
É aí que a história fica deliciosa de tão anacrônica. O Brasil virou república em 15 de novembro de 1889, confirmou isso em plebiscito em 1993, e mesmo assim a Casa Imperial mantém a fila simbólica para um trono que, na prática, não existe. É como brigar pela suíte presidencial de um hotel que foi demolido no século XIX.
Se o casamento acontecer sem autorização, Dom Rafael deve seguir o mesmo caminho da irmã mais velha, Dona Maria Amélia, que renunciou aos direitos dinásticos em 2014 para se casar com o escocês Alexander James Spearman. Com Rafael fora da linha, a irmã mais nova, Dona Maria Gabriela, passaria a ser a segunda na fila, atrás do tio Dom Bertrand, que tem 85 anos, nunca se casou e não teve filhos.

Eu adoro uma fofoca de realeza, mas essa vem com um tempero brasileiro muito próprio: pompa, tradição, romance proibido e zero possibilidade real de coroa no fim do capítulo. É tipo “The Crown” com boleto de condomínio e memória da Proclamação da República gritando no fundo.
Dom Rafael parece estar diante daquela escolha clássica de novela: o amor ou o trono. Só que, no caso dele, o trono é mais conceito do que móvel. Se escolher Margherita, perde a posição simbólica. Se escolher a fila dinástica, ganha o quê? Um lugar privilegiado numa hipótese tão distante que nem o Google Agenda deve aceitar marcar.