Olha, eu estava aqui em Milão ontem à noite jantando com uma fonte do mercado de música eletrônica europeia quando ela me perguntou se eu tinha acompanhado o Alok no Tomorrowland Winter. Respondi que estava de olho e ela disse: “ele foi o assunto da semana inteira lá”. Três palcos, três formatos, temperatura abaixo de zero, e o brasileiro foi embora com reputação maior do que chegou.
O primeiro set aconteceu no palco Orbyz, a 2.100 metros de altitude nas pistas de esqui, com nevasca forte e -9°C, e virou o momento visual mais comentado da semana.
Na quinta-feira (26), Alok apresentou o projeto “Something Else” no Frozen Lotus, um espaço mais intimista com curadoria experimental e sonoridade underground, o lado conceitual que o grande público raramente vê. No último dia (27), foi para o palco principal entregar os hits de alcance global, com transmissão ao vivo pelo app do Tomorrowland, pelo YouTube do festival e pela One World Radio, multiplicando o alcance para milhões de espectadores.
O que a semana em Alpe d’Huez consolida na carreira de Alok é exatamente o argumento que seus críticos mais resistem em aceitar: a capacidade de transitar entre o frequentador de pista underground e o festivaleiro de primeira viagem sem perder coerência artística. Circular por três palcos com propostas tão distintas numa única edição é o tipo de movimento que exige confiança de catálogo e leitura de público, e o brasileiro entregou os dois.
A neve nos Alpes franceses serviu de cenário para um dos capítulos mais sólidos da trajetória internacional de Alok. Agora resta saber o que ele faz com esse impulso no restante do ano, porque Tomorrowland Winter com esse nível de presença cria expectativa, e expectativa cobrada por público europeu tem prazo de validade curto.