Eu estava atravessando um saguão chiquérrimo na Europa, aquele povo andando com cara de reunião decisiva e café caro na mão, quando caiu no meu colo o tipo de notícia que faz executivo de infraestrutura sorrir com planilha aberta. O Aeroporto de Brasília vai passar por um novo leilão, minha gente. E não vem sozinho, porque o pacote inclui mais dez aeroportos regionais, o que já dá aquele perfume de operação grande, lobby elegante e disputa com salto fino no asfalto.
O fato é o seguinte, com toda a clareza que a aviação merece. O TCU aprovou nesta quarta-feira, 1º, o acordo firmado entre o Ministério de Portos e Aeroportos, a Anac e a Inframerica para repactuar o contrato de concessão do Aeroporto Internacional de Brasília. A solução prevê um processo competitivo simplificado em 2026, com mudança nas obrigações do contrato, troca de outorga fixa por variável e inclusão de dez aeroportos regionais ao bloco. O contrato novo vai até 2037. No papel, são cerca de R$ 1,2 bilhão em investimentos em Brasília ao longo do período restante, incluindo novo terminal internacional, edifício-garagem, nova via de acesso e reforço em equipamentos de segurança e inspeção. Nos outros dez aeroportos, a conta prevista é de cerca de R$ 660 milhões.
No bastidor digital, esse tipo de notícia nunca viraliza como briga de camarim, mas mexe com um povo que ama postar foto de obra, canteiro, capacete branco e frase sobre futuro do país. E tem um detalhe delicioso para quem gosta de feed com subtexto: a operação é vendida como continuidade do Programa AmpliAR, aquele modelo em que aeroportos menores entram na mala de concessões maiores para ganhar tração. Traduzindo do burocratês para o idioma da mesa de bar, Brasília vira a joia do lote e os aeroportos regionais entram como parte da engenharia política e econômica do pacote. Teve autoridade falando em segurança para investimentos, melhora de serviço e benefício para outras cidades. Ninguém ia dizer outra coisa, claro, mas desta vez o desenho tem peso real.
A leitura maldosa, porém educada, é simples. O governo precisava ajustar uma concessão relevante sem deixar a novela azedar mais do que já azedou no setor aéreo brasileiro nos últimos anos. O TCU entrou como adulto da sala, organizou o acordo e empurrou a solução para uma relicitação com cara de arrumação institucional. Também ficou acertada a saída da Infraero da concessão atual, com remuneração pela sua participação societária de 49%. Ou seja, teve rearranjo de poder, teve redesenho de contrato e teve a velha máxima de Brasília, aquela cidade que adora chamar terremoto de repactuação consensual.
No fim, o aeroporto da capital virou vitrine de uma operação que mistura infraestrutura, política pública e dinheiro graúdo com a elegância de quem sorri no evento e fecha o negócio no reservado. E eu só digo uma coisa, em Brasília até pista de pouso entra em clima de sucessão, porque aqui ninguém troca comando sem transformar a sala VIP num pequeno capítulo de novela executiva.