A morte de Fernanda Fialho, aos 29 anos, foi comunicada na sexta-feira (2) pelo perfil Para Que Tabu, projeto que ela administrava no Instagram. A causa não foi informada, e a família pediu que a despedida ocorra de forma íntima e reservada. “Seu amor, sua voz e sua história permanecem entre nós”, diz a publicação.
Eu estava escolhendo o almoço na Tascantiga, em Sintra, quando a notícia chegou, e fiquei olhando para a tela sem vontade de fazer o menor comentário espirituoso. Há histórias que pedem silêncio antes de qualquer coisa. Fernanda tinha feito da própria existência uma conversa franca com gente que, muitas vezes, só encontra acolhimento quando alguém resolve dizer em voz alta o que todos insistem em esconder.
À frente do Para Que Tabu, ela reuniu mais de 160 mil seguidores ao falar sobre autismo, diagnóstico tardio, saúde mental, maternidade atípica e rede de apoio. Não era conteúdo de frase pronta, meu amor. Era uma mulher tentando organizar a vida adulta e abrindo espaço para que outras pessoas também se enxergassem nela.

Fernanda descobriu ser autista já adulta, depois do diagnóstico da filha. Na apresentação do perfil, ela se definia como “uma autista e mãe de autista tentando sobreviver à vida adulta”, frase que explicava muito da força daquele espaço: ela não falava de longe, com cartilha na mão e pose de especialista intocável. Ela falava de dentro.
Eu deixei o guardanapo sobre a mesa e pensei no tamanho dessa ausência. Porque Fernanda não tratava neurodiversidade como tendência de internet. Ela discutia as dificuldades de adultos autistas, a necessidade de suporte contínuo e o quanto o diagnóstico tardio pode mudar a leitura que uma pessoa faz da própria história.
Em 2025, ela lançou o livro A história que meus pais não contariam — sobrevivendo sem o diagnóstico de autismo. A obra levava para o papel discussões que ela já fazia nas redes, em palestras e projetos: o peso de crescer sem entender a si mesma e a urgência de escuta para quem passa décadas sendo chamado de “difícil” quando precisava de cuidado.

Fernanda também falava publicamente sobre saúde mental e acolhimento, sempre sem vender receita milagrosa para uma dor que ela conhecia de perto. Num tempo em que tanta gente transforma sofrimento em conteúdo descartável, ela construiu uma comunidade que parecia dizer: “você não está exagerando, você não está sozinho”.
As homenagens de amigos, criadores de conteúdo e seguidores mostram o tamanho do vínculo que ela criou. A família, porém, pediu respeito ao luto e à privacidade neste momento. E é isso que fica, minhas filhas: a voz de Fernanda segue nas pessoas que aprenderam, através dela, a trocar vergonha por entendimento.