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Kátia Flávia
Kátia Flávia

A série documental Drag Ataque mergulha no universo artístico das drag queens do Norte e Nordeste do Brasil 

Série documental estreia dia 14 no Fashion TV, acompanha artistas fora dos palcos e transforma costura, música, maquiagem, dança e vida real em espetáculo

Kátia Flávia

12/08/2026 10h51

Dirigida por Vinícius Gouveia, Drag Ataque terá 12 episódios dedicados aos bastidores da cena drag do Norte e Nordeste.

Dirigida por Vinícius Gouveia, Drag Ataque terá 12 episódios dedicados aos bastidores da cena drag do Norte e Nordeste.

Eu já tinha saído do Leblon e estava em casa tentando colocar ordem numa agenda cheia de reuniões quando o celular começou a apitar mais do que deveria. Achei que fosse alguém inventando mais uma reunião para uma quarta-feira que já não cabia nem mais um café. Que nada. Eram algumas amigas drags me chamando para saber se eu já tinha visto a novidade e, claro, dando aquela pressionadinha carinhosa para esta coluna divulgar. “Kátia, você precisa falar disso.” Quando a terceira mensagem chegou praticamente com a mesma ordem, larguei a agenda de lado e fui entender o babado.

A série documental “Drag Ataque” estreia nesta sexta-feira, dia 14, às 21h, no Fashion TV, com direção de Vinícius Gouveia e produção da Plano 9. Serão 12 episódios semanais dedicados à cena drag do Norte e Nordeste do Brasil, com nomes como Ruby Nox, Potyguara Bardo, Safira Blue, Aimée Lumière e Sharlene Esse.

E já começa pela roupa, porque drag nenhuma vai para a guerra sem figurino. No primeiro episódio, “Drag Costura”, Charlotte Delfina, de Pernambuco, encontra Joanne Versace, do Pará, para criar looks inéditos com orçamento limitado e apenas três dias antes de colocá-los na pista da Boate Metrópole, no Recife.

Por trás de Charlotte está Darly Ravanelly, formado em Vestuário e há 11 anos na cena drag. Do outro lado está Alex Figueiredo, artista que aprendeu a costurar sozinho ainda criança, numa máquina que a irmã havia ganhado do avô, e hoje transforma esse conhecimento na persona Joanne Versace, além de vestir outras drags paraenses.

Ou seja, um chegou à costura pela academia, o outro aprendeu fazendo. Os dois acabam no mesmo centrão comercial, pechinchando tecido e tentando fazer orçamento pequeno parecer figurino milionário. Eu conheço muito stylist de celebridade que vive exatamente o mesmo drama e chama de alta-costura emergencial.

Quem aparece para ajudar é Danni Bodega, artista premiada da cena ballroom nordestina que vive uma jornada que já valia documentário próprio: durante o dia confecciona vestidos de noiva e, à noite, veste integrantes de sua casa de ballroom para os balls.

“Vindos de contextos diferentes, sendo um formado pela academia e outro pela prática, Darly e Alex compartilham a mesma paixão pela arte drag e pela moda”, explica o diretor Vinícius Gouveia.

E é justamente esse bastidor que ele queria mostrar. Vinícius conta que chama o projeto de “a realidade drag”, porque a proposta não é construir um reality show, mas um documentário pop inspirado nos 15 anos em que conviveu com drag queens enquanto trabalhava como DJ na noite nordestina.

“Eu chamo a série de ‘a realidade drag’ porque não é um reality show, é um documentário bem pop pensado para mostrar coisas que só eu via nos meus 15 anos convivendo com drag queens quando eu era DJ na noite nordestina. A força da série, para mim, está no contraste da intimidade dos bastidores e nos palcos, onde as personagens defendem sua arte utilizando de seus corpos transmutados através da arte drag queen e transformista”, declara.

E os próximos episódios deixam claro que ninguém vai ficar preso ao camarim. Tem drag compondo brega funk, experimentando maquiagem, fazendo lipsync, aprendendo passinho, atuando, gravando videoclipe, entrando no circo e ocupando as ruas do Recife Antigo com voguing em plena luz do dia.

A produção também atravessou seus próprios perrengues. Mannu Costa, da Plano 9, lembra que a pandemia atrasou o projeto, mudou o contexto social e ainda provocou defasagem no orçamento. A solução foi fazer aquilo que drag sabe fazer muito bem: trabalhar com o que tem e entregar mais do que esperavam.

“Esse desafio se tornou uma alegria, um orgulho, porque demos vez, voz e palco para artistas incríveis, além de entregarmos uma obra instigante, relevante socialmente e única em sua proposta. Tenho certeza que esse é só o começo e já estamos pensando em novas temporadas”, afirma.

O Fashion TV também aposta justamente no recorte regional. Para Ramiro Azevedo, diretor do canal, apesar de a cultura drag ter conquistado mais espaço nos últimos anos, as cenas regionais ainda aparecem pouco.

E é aí que “Drag Ataque” acerta o salto. A gente conhece a drag pronta, maquiada, iluminada e com a música começando. A série quer mostrar a pessoa procurando tecido, contando dinheiro, ensaiando, errando, rindo, chorando e montando aquela criatura antes de abrir a cortina.

Agora eu preciso voltar para a minha agenda de reuniões, mas já avisei às minhas amigas drags que missão dada é missão cumprida. Vou assistir porque quero saber quem segura o vestido quando o zíper quebra, quem corre atrás da cola, quem acalma a outra no camarim e, principalmente, como alguém transforma três dias, pouco dinheiro e muita imaginação em aplauso de boate lotada. Porque glamour pronto todo mundo fotografa. O babado mesmo acontece antes.

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