Tiffany Abreu se pronunciou pela primeira vez após a Confederação Brasileira de Vôlei aderir à política do Comitê Olímpico Internacional que restringe a participação de mulheres trans em competições femininas. A oposta do Osasco, liberada para disputar o Campeonato Paulista, afirmou que a decisão ameaça sua carreira e representa um retrocesso para o esporte.
Eu levantei para pegar uma água com gelo, voltei para a mesa e abri a agenda da semana tentando colocar ordem no domingo. Aí veio Tiffany dizendo, com todas as letras, que a CBV está tirando dela o que ela tem. E, quando uma atleta precisa defender a própria existência profissional depois de dez anos em quadra, não dá para tratar como nota protocolar de federação.
Depois da derrota do Osasco para o Pinheiros por 3 sets a 2, na estreia do Campeonato Paulista, Tiffany falou sobre a decisão da CBV. Aos 41 anos, ela disputa aquela que provavelmente será sua última temporada antes da aposentadoria.
“O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos. São 10 anos no voleibol feminino. Não comecei ontem”, declarou.
A jogadora também afirmou que a medida não atinge apenas sua trajetória individual, mas clubes, torcida, patrocinadores e pessoas que se inspiram nela.
“Isso não afeta somente a mim. Afeta meu clube, a torcida, patrocinadores, as pessoas que se inspiram em mim, o direito de todas as pessoas trans”, completou.

Eu parei com a agenda aberta e fiquei olhando para essa frase. Porque tem decisão que chega vestida de regra técnica, mas carrega impacto humano enorme. Tiffany não está falando de uma inscrição perdida. Está falando de profissão, identidade, visibilidade e de uma década inteira tentando existir dentro de um esporte que agora muda a porta de entrada.
A CBV anunciou na sexta-feira (14) que adotará, em competições nacionais de quadra e praia, a política do COI para elegibilidade na categoria feminina. Pela nova regra, atletas deverão apresentar teste genético com resultado negativo para o gene SRY, associado ao desenvolvimento masculino.
Segundo a entidade, os critérios passam a valer a partir da Superliga A e B 2026/27, além da Supercopa 2026, Copa Brasil 2027, Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia 2027 e CBVP Challenger 2027. Quem não comprovar elegibilidade ficará impedida de competir.
Tiffany classificou a medida como um “enorme retrocesso” e comparou a situação a práticas antigas de verificação de sexo em atletas.
“Voltamos para uma forma vexatória, como se testavam as atletas nos anos 60 e 70. Estamos em 2026. Não podemos ter esse retrocesso jamais”, afirmou.

No Campeonato Paulista, porém, Tiffany segue liberada. A Federação Paulista de Voleibol informou que o torneio começou antes da nova determinação da CBV e, por isso, continua seguindo as regras anteriores. A jogadora recebeu apoio da torcida do Osasco, teve o nome gritado e viu cartazes e leques coloridos nas arquibancadas.
A trajetória dela é pioneira no Brasil. Depois de atuar em clubes nacionais e internacionais, Tiffany concluiu a transição de gênero e recebeu autorização da Federação Internacional de Voleibol em 2017 para disputar competições femininas. Naquele ano, tornou-se a primeira mulher trans a jogar uma partida da Superliga Feminina.
Pelo Osasco, consolidou-se como um dos principais nomes da posição e, na temporada 2024/25, conquistou Superliga, Copa Brasil e Campeonato Paulista. Com o título nacional, tornou-se a primeira atleta trans campeã da Superliga Feminina.
No fim do pronunciamento, Tiffany avisou que não pretende aceitar a decisão em silêncio.
“Não vou me calar. E vou tomar todas as medidas possíveis para que minha luta pelo direito, visibilidade, inclusão e prática do esporte não tenham sido em vão. Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês”, prometeu.
Eu fechei a agenda por um minuto. Porque essa pauta não é só sobre regulamento esportivo. É sobre uma mulher que passou dez anos jogando, ganhou títulos, virou referência e agora precisa dizer ao país inteiro que sua história não foi em vão. Pesado, sim. E necessário.