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Kátia Flávia
Kátia Flávia

15 veículos dizem não às bets e entregam quem topa o anúncio até hoje

Gente, eu estava na Lagoa Rodrigo de Freitas, chá de amigas marcado com vista pro Corcovado, água de coco na mão, quando o celular vibrou tanto que quase caiu na grama. Fonte do lado editorial, ofegante, direto ao ponto: Kátia, sai o editorial hoje. Eu larguei o bolinho de chuva na mesa. Que editorial, amor?

Kátia Flávia

21/07/2026 17h30

Quinze veículos de jornalismo divulgaram um editorial conjunto contra a publicidade de casas de apostas.

Quinze veículos de jornalismo divulgaram um editorial conjunto contra a publicidade de casas de apostas.

Nesta terça-feira, 21 de julho, quinze veículos de jornalismo publicaram ao mesmo tempo, em seus sites e em suas redes sociais, um editorial conjunto batizado de “Aqui não tem propaganda de bets”, recusando oficialmente anúncios de casas de apostas. Assinam nomes como Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta Jornalismo, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal Imprensa e Reset. E a lista cresceu rápido, porque outros portais publicaram a mesma peça horas depois, ampliando o time.

Segundo Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública, a ideia nasceu de conversas com direções de redação que contaram estar sendo assediadas diariamente por bets oferecendo anúncio, a ponto de simplesmente bloquear o remetente. A justificativa é direta: aceitar esse tipo de publicidade contradiz o próprio jornalismo que essas equipes produzem, já que as reportagens internas apontam uma crise social desenfreada por causa das apostas. E o timing não é acaso. O tema explodiu durante a Copa do Mundo, quando o Conar suspendeu, em caráter liminar, a publicidade de bets nas transmissões da CazéTV, incluindo Betnacional, Bet365 e KTO, e o governo federal apertou o cerco com uma portaria que entrou em vigor em 10 de julho, proibindo apelo a ganho fácil, promessa de renda e chamadas de urgência ao apostador.

Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública, é uma das idealizadoras do editorial conjunto “Aqui não tem propaganda de bets”, iniciativa que reúne veículos de jornalismo na recusa à publicidade de casas de apostas.
Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública, é uma das idealizadoras do editorial conjunto “Aqui não tem propaganda de bets”, iniciativa que reúne veículos de jornalismo na recusa à publicidade de casas de apostas.

Reparem no detalhe de bastidor: o editorial saiu publicado de forma coordenada, sem vazamento prévio, o que é raríssimo nesse mercado onde ninguém guarda segredo por mais de duas horas. E reparem também em quem não assinou. UOL e Folha, que segundo levantamento recente já não veiculam anúncios de bets, ficaram fora da lista oficial. Quem já faz o dever de casa nem precisa assinar boletim de intenções. Enquanto isso, os campeões desse tipo de anúncio continuam de portas abertas, com Metrópoles, IG, ClicRBS e Portal R7 concentrando a fatia mais gorda dessas peças publicitárias mapeadas no mercado brasileiro.

Essa não é a primeira rodada dessa briga toda. Desde meados de 2025, Natalia Viana já vinha batendo na tecla publicamente, apontando que veículos como Brasil 247, Metrópoles, CNN e Terra estariam publicando publieditoriais de bets disfarçados de conteúdo jornalístico. O Brasil 247, sentindo o dedo na ferida, rebateu chamando a Agência Pública de financiada por fundações internacionais, sugerindo que a cruzada seria política e não ética. Ou seja, o editorial de hoje não é só um manifesto de princípios, é a continuação de uma disputa que já tem histórico, lançada num momento em que o Senado já havia aprovado, desde maio de 2025, a proibição de bets usarem atletas, artistas e influenciadores em campanha. Publicar agora, logo depois da portaria entrar em vigor e da liminar contra a CazéTV, é aproveitar a régua que o próprio governo acabou de esticar.

Quinze veículos de jornalismo divulgaram um editorial conjunto contra a publicidade de casas de apostas.
Quinze veículos de jornalismo divulgaram um editorial conjunto contra a publicidade de casas de apostas.

E vale reconhecer que recusar anúncio de bet numa imprensa que já vive de meia mesada é decisão cara. Fácil é assinar carta de princípios quando o caixa está cheio. Assinar em grupo também tem sua elegância contábil, porque ninguém fica sozinho recusando o cheque quando o vizinho de redação faz exatamente o mesmo gesto. Solidariedade editorial, cá entre nós, também é uma forma sofisticada de dividir a conta.

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