A experiência do “cara-a-cara” ficou um pouco de lado com a pandemia, mas, mesmo antes disso, a tecnologia já nos afastava uns dos outros e esfriava o calor do encontro presencial e do contato físico. Voltando entre 20 e 30 anos no tempo, a gente se depara com um outro momento, em que pouca coisa podia ser feita de forma digital. Esse é justamente o tema de “Quando a Gente Ainda Revelava Fotos”, novo clipe do artista paraibano Júnior Cordeiro.
Com concepção, roteiro e direção da artista Renata Cabral, o vídeo explora questões mais simbólicas que permeiam o que é dito pela canção. A cada vez mais defasada convivência física, potencializada pelo coronavírus, passa uma sensação de que vivemos com cada vez mais medo e com uma necessidade cada vez maior de proteção. Para traçar diálogos com outras épocas, o clipe ainda contempla paralelos com outras obras clássicas. O artista surrealista belga René Magritte, por exemplo, é homenageado com releituras de suas famosas pinturas “O Terapeuta” e “Os Amantes” (que simboliza de forma literal o drama que vivemos hoje com a importância do uso das máscaras). Já o fotógrafo norte-americano Man Ray recebe homenagens com base em suas obras “Preto e Branco” e “O Violino de Ingres”.
Frame do clipe em comparação com “Os Amantes” (1928), de René Magritte
Frame do clipe em comparação com “Preto e Branco” (1928), de Man Ray (1926)
Uma versão alternativa do vídeo ainda conta com a contribuição da experiente intérprete de libras Josy Escórcio. Assim, o clipe ganha ainda mais força ao se tornar acessível para a comunidade dos deficientes auditivos, que poderão consumir a música além das imagens e desfrutar da mensagem poética transmitida pela letra de Cordeiro.
Musicalmente eclética, a faixa tem referências no rock ‘n roll, em especial da música psicodélica e do rock progressivo, mas traz na voz de Júnior o singular acalanto nordestino. Perfumando melodicamente o resultado final estão solos de guitarra e violoncelo, que ajudam a aprofundar ainda mais o já imersivo universo, ao mesmo tempo misterioso e nostálgico, proposto pela canção. A letra, enquanto isso, vai além da mera questão fotográfica ao dizer que “os olhos do tempo viam mais que a multidão e o gosto do mundo dentro das paisagens”. O autor explica: “o próprio título, na verdade, é uma alegoria. Eu falo sobre esses tempos gostosos, mas isso pode ser desfigurar para livros, para relações de afeto… É uma grande metáfora para o que está acontecendo na modernidade”.
Sobrinho de fotógrafo, Júnior vê nessa canção um peso simbólico, já que é uma de suas favoritas e simboliza bem a proposta de sua obra, que, em 7 discos, ficou marcada por temas filosóficos e metafísicos. “Ela é muito imagética, porque, além de tratar de fotos, sintetiza o discurso inteiro do álbum: a perda da nossa identidade, do nosso tato, do nosso contato… Sugere uma nostalgia”, conta Júnior sobre o atual single.
“Quando a Gente Ainda Revelava Fotos” íntegra #câmaraeco, o mais recente disco do compositor, disponível desde janeiro deste ano. O lançamento é uma celebração de seus 15 anos de carreira e traz como principal objeto de discussão a modernidade líquida e globalizada na qual estamos inseridos. Assim como os álbuns anteriores de Júnior, esse disco foi desenvolvido como um livro, com uma história que, em 13 faixas, conta com introdução, meio e conclusão.
SOBRE JÚNIOR CORDEIRO
Júnior Cordeiro, artista paraibano, sempre teve por maior característica musical, em seus 15 anos de carreira, a alquimia entre os gêneros de música nordestina com o rock ‘n roll, onde distribuem-se sete discos e dois DVDs gravados. O artista incursiona por praticamente todos os segmentos de música nordestina, bem como por várias vertentes do rock, sobretudo o rock progressivo, o blues e o hard rock, tudo isso permeado por doses generosas de Psicodelia.
Sua poética, enquanto denuncia fortes influências dos cordelistas e repentistas nordestinos, carrega traços dos mais diversos poetas literários. Utilizando temáticas bem originais em suas letras e recorrendo, sempre que pode, a várias citações filosóficas e literárias, Cordeiro aborda assuntos voltados para o Nordeste mítico e místico, a herança ibérica, a memória popular, o realismo fantástico, a metafísica, o existencialismo, a filosofia em geral e a pós-modernidade líquida e globalizante. O músico é acompanhado pelo grupo Os Templários do Sol, formado por Moisés Freire (viola), Kamillo Lima (bateria), Giordano Frag (guitarra) e Max Dias (baixo), com quem já tocou nos mais importantes palcos da Paraíba e em diversos festivais.