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Walter Carvalho pincela fotos com platina em exposição no Rio

São 17 obras expostas no Mul.ti.plo Espaço Arte, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, até o dia 24 de junho

Por FolhaPress 13/05/2022 9h39
São 17 obras expostas no Mul.ti.plo Espaço Arte, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, até o dia 24 de junho Foto/Reprodução

As pinceladas são vigorosas e nada discretas. Sobre o papel, elas dão forma a objetos tão prosaicos quanto uma caneta, um ferro de engomar e uma bomba de combustível. Mas não se engane. Essas imagens não são exatamente pinturas, mas também não são fotografias. As 17 obras expostas no Mul.ti.plo Espaço Arte, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, estão no caminho entre uma coisa e outra, são um encontro entre o pincel e a câmera.

“Tudo o que tem ambiguidade me interessa, seja na poesia, na literatura, seja no cinema. O que me fascina é não conhecer. O que me enche os olhos de sonhos é tentar entender aquilo que não está completo diante de mim”, diz Walter Carvalho, 75, atualmente diretor de fotografia da novela “Pantanal” e um dos profissionais mais respeitados do mercado.

Ele foi responsável pela fotografia de pesos-pesados do cinema nacional, como “Central do Brasil”, “Terra Estrangeira” e “Madame Satã”. Carvalho também assinou trabalhos na televisão e está no ar atualmente com “Pantanal”, que tem colhido elogios pela fotografia exuberante.

Em meio às gravações, ele encontrou tempo para preparar a mostra “Iluminuras”, aberta ao público na quinta-feira (12), reunindo trabalhos inéditos feitos por meio da platinotipia -um processo que usa a platina durante a impressão de imagens.

Patenteada em 1873 pelo inglês William Willis, a técnica não é barata. A platina precisa ser importada dos Estados Unidos e, segundo Carvalho, custa US$ 100. Ainda assim, o elemento despertou o interesse do fotógrafo.

“A platina me seduziu pelo fato de poder trabalhar à luz do dia e de não precisar de um laboratório. Além disso, me atraiu o fato de poder ter uma atitude no papel cujo resultado se aproxima de um desejo meu de manchas pretas nas imagens.”

Tons escuros de fato ganham protagonismo nas obras, bem como a relação entre luz e sombra, uma das características do trabalho de Carvalho. Esses contrastes remetem às gravuras, técnica pela qual o artista nutre interesse. “Se não fosse fotógrafo, seria gravurista.”

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Uma das obras que mais chamam a atenção na mostra é a imagem de um são Miguel Arcanjo decadente. Carvalho conta que fez a imagem em uma visita ao antigo prédio do Dops, o Departamento de Ordem Política e Social, no centro do Rio, onde amigos dele foram presos e torturados durante a ditadura militar. Na portaria, o artista encontrou uma imagem alquebrada do arcanjo, que é considerado símbolo da justiça.

Foto/Reprodução

Obra do fotógrafo Walter Carvalho que retrata estátua de São Miguel Arcanjo no Dops do Rio Divulgação fotografia ** O braço com que a divindade segura uma balança está parcialmente destruído; enquanto o outro, em que o arcanjo carrega uma espada, está intacto. Para o fotógrafo, a imagem é símbolo de um país em que o Judiciário está fragilizado.

“Isso reflete o que eu acho da Justiça atualmente no Brasil. Ela está com o braço da balança quebrado. Veja bem, a espada e o dragão continuam intactos, mas a balança da Justiça está quebrada”, reflete ele.

Diretor da Mul.ti.plo, Maneco Müller diz que Walter Carvalho inaugura na exposição uma maneira inovadora de trabalhar a linguagem fotográfica. “Negando, inclusive a própria fotografia, porque ela pode ser reproduzida ao infinito. Enquanto essas obras são impossíveis de serem reproduzidas. Cada obra é única.”

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Ele destaca ainda que as pinceladas dadas por Walter no processo de impressão dão às obras um caráter expressionista. “Essa pincelada revela esse casamento entre a mão e o olhar. Essas duas inteligências somadas fazem desse trabalho uma linguagem nova em relação à fotografia.”

O artista se dedica a processos de impressão alternativos há mais de 20 anos. Em 2004, fez uma exposição no Instituto Moreira Salles com imagens feitas por meio de gelatina de prata. No entanto, essa é a primeira vez que expõe trabalhos que foram frutos das experimentações com a platinotipia.

Nesse processo de impressão, Carvalho coloca 80 gotas de óxido de ferro, de paládio e de platina em um recipiente. Depois, embebe o pincel nessa combinação e, com ele, começa a fazer pinceladas em um papel de algodão. Por fim, ele coloca a matriz de uma foto junto com o papel, expõe à luz do sol e, depois, revela a imagem.

Ele explica que seu interesse por processos alternativos tem a ver com o desafio que essas técnicas impõem. “É sobre trabalhar fora do que se estabeleceu como critério e parâmetro”, diz ele. “O que faz querer buscar aquilo que você quer conhecer é exatamente aquilo que você não conhece. Quando você começa a saber tudo sobre o objeto, vai perdendo interesse por ele.”

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ILUMINURAS

Quando Seg. a sex., das 11h às 18h; sáb., com agendamento. Até 24/6

Onde Mul.ti.plo Espaço Arte – r. Dias Ferreira, 417, sala 206, Leblon

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Preço Grátis

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