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Vamos salvar o Festival de Brasília!

Secretário de Cultura quer se reunir com artistas para evitar suspensão do evento

“Vamos somar forças e lutar juntos pelo festival”

Esperança Secretário de Cultura do DF diz que quer diálogo com a classe artística e com outros setores do governo  para evitar o cancelamento do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Na esteira do desespero que se abateu sobre o setor cultural do Distrito Federal — e do Brasil — após o anúncio, no último domingo (7), de que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano seria cancelado, o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues, reacendeu ontem as esperanças de que outra solução poderá ser possível. “Eu quero que o festival aconteça. A reação da classe artística contra a suspensão está sendo maior do que eu esperava — e isso me fortalece. Vamos somar forças e lutar juntos pelo festival.”

O cancelamento da 53ª edição do Festival de Brasília se deu por falta de verbas, segundo o secretário.

“Estou fazendo isso a contragosto. A sinalização que eu tive foi de que não haveria recurso para a realização do festival em função da crise econômica e sanitária da covid-19, então eu não poderia dar continuidade ao processo de desenvolvimento do festival. Tive de ceder à realidade”, disse o secretário.

Há aproximadamente duas semanas, Bartô — como é conhecido — comentou a possibilidade de realizar esta edição do festival em plataformas virtuais e também, de forma presencial, no Cine Drive-in, o único cinema da América Latina que tinha permissão para funcionar até então. Na ocasião, o secretário disse ao Jornal de Brasília que estava “muito animado” com essa perspectiva.

“A realização de um festival envolve recursos e ações de ordem legal, como chamamento público e publicação de editais. E eu tenho um prazo para dar esses passos rumo à efetivação do evento. Mas o recurso previsto para o festival não está mais disponível, então eu não posso dar início ao processo. Não posso trabalhar no escuro e assumir um compromisso que mais tarde não poderia honrar”, explicou o secretário.

Em nota, a Secretaria de Economia do DF informou que, “devido à priorização das ações de governo no combate ao coronavírus e os efeitos econômicos da pandemia, as definições sobre os investimentos de outras áreas estão sendo discutidas caso a caso junto ao governador Ibaneis Rocha” e que, “na última quinta-feira (4), apenas, o secretário de Cultura manifestou interesse em tratar do orçamento para a realização do Festival de Cinema”.

A pasta ressaltou que “está aberta ao diálogo e fará as discussões e análises a fim de buscar, em conjunto com a Cultura, as melhores soluções possíveis para atender o setor”.

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O secretário Bartolomeu, por sua vez, disse ontem que quer reiniciar o diálogo com a Secretaria de Economia para garantir as verbas do festival. “Estou feliz com toda a manifestação da classe artística do DF e até do Brasil. A reação está sendo tão grande que, em razão disso, estou determinado a buscar alternativas. Estou fazendo um chamado público, conclamando aos cineastas e artistas para a gente dar as mãos, buscar soluções, pensar uma solução e construir juntos essa edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro”, finalizou Bartô.

O Fórum Nacional dos Organizadores de Festivais de Cinema enviou uma carta ao secretário Bartolomeu pedindo a realização do Festival de Brasília. Inúmeras entidades de audiovisual do Distrito Federal também se posicionaram contra o cancelamento do evento. Cineastas consagrados da capital manifestaram o descontentamento com a decisão.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais antigo festival de seu tipo no país. Foi criado em 1965 por Paulo Emilio Sales Gomes, então professor da Universidade de Brasília (UnB). De lá para cá, o evento só foi interrompido entre 1972 e 1974 por censura da ditadura militar.

Depoimentos

“A Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) recebeu com surpresa e pesar a notícia do cancelamento do Festival de Brasília, principalmente porque estávamos em diálogo com as Secretarias de Cultura e Economia do DF. Em nenhum momento a Secec manifestou cenário para cancelamento do Festival; muito pelo contrário. O Festival de Brasília é o mais tradicional e antigo festival de cinema do país, surgiu praticamente junto com a cidade, em 1965, e com o objetivo de promover o cinema brasileiro. Apenas foi interrompido durante a ditadura militar, entre 1972 e 1974, por motivos ideológicos.

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Neste momento de profunda fragilidade que nossa democracia enfrenta, é um sinal que nos apavora. O setor audiovisual do DF já enfrenta desde 2019 profundas dificuldades na esfera distrital e federal. Mas agora, mais do que nunca, vemos a importância da arte e da cultura! Em meio à dor, ainda precisamos sonhar e transformar o mundo que conhecíamos até então.

Neste ano de 2020, celebramos os 60 anos de Brasília, que foi construída com base no fortalecimento da cultura e da educação. O Festival deveria ocupar lugar de farol em meio a tanta incerteza; seria uma excelente oportunidade de encerrar o ano com uma grande celebração, trazendo possibilidades de ressignificação e reinvenção do formato e de democratização do evento.”
Dani Marinho, presidente da ABCV

“O Festival de Brasília tem 52 anos de relevantes contribuições para o país. Brasília e o Brasil se fortalecem ano a ano com essa potente celebração do cinema brasileiro. O cancelamento de uma edição é um crime simbólico que precisa ser impedido. Sabemos que o momento traz grande complexidade e desafios de dimensões que ainda não tínhamos enfrentado, mas o Festival de Brasília, como um dos pilares da articulação cultural no país, merece todos os esforços para que sua realização seja preservada. Ele não pode parar!”
Marcus Logocki Jr., produtor, roteirista e diretor

“Se Nada Mais Der Certo (José Eduardo Belmonte), Este é um Filme Triste (Denise Moraes). Deu no Jornal (Yanko Dele Pino), que nas Contradições de uma Cidade Nova (Joaquim Pedro de Andrade), a covid-19 entrou em cena e fechou as portas do Cine Brasília para a 53ª edição do FBCB. Sendo Assim (Ana Carolina Porto), nós, Brasiliários (Zuleica Porto e Sérgio Bazi), torcemos por A Volta do Candango (Filipe Contigo e Eric Aben Athar), para a alegria dos Conterrâneos Velhos de Guerra (Vladimir Carvalho). Dias Melhores Virão? (Cacá Diegues). É a esperança dos Loucos por Cinema (André Luiz Oliveira). Axé — e só o desabafo triste de um louca por cinema…”
Berê Bahia, pesquisadora e cinéfila

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“Não podemos ficar sem o Festival! Neste momento de dor, de agonia, de isolamento, de crise política e financeira, o Festival será palco de muita esperança. Será lugar de encontro e de olhar para o futuro. O governador do DF está enfrentando uma crise sem precedentes, os trabalhadores da cultura sabem disso. Mas todos estamos! Não podemos nos calar quando chega a notícia de que o símbolo cultural mais antigo da cidade está CANCELADO! Festivais menores e mais jovens estão buscando parcerias e patrocínios para atravessar a crise, o nosso também encontrará seu caminho!

A Secretaria de Fazenda precisa liberar recursos, pois deles depende a sobrevivência, neste momento, dos fazedores de cultura do DF. Temos a Lei Aldir Blanc, ela poderá ser usada para salvar o Festival? Existem soluções? Pensemos! Chegar com a bomba, sem dar chance de encontrarmos soluções, não é a medida ideal a ser tomada pelo governo neste momento que deve ser de união e cooperação! Nós precisamos sobreviver! Nossos vidas, nossos empregos, nossa economia também conta!”
Cibele Amaral, atriz, diretora, roteirista e representante da Associação das Produtoras de Cinema e Audiovisual de Brasília (Aprocine)

“Como estudante de cinema, depois cineasta, crítico e curador, sempre tive a clareza de que o Festival de Brasília era a mais relevante ocasião do ano para o cinema nacional. Por isso, considero a maior honra da minha trajetória ter tido a possibilidade de ajudar a realizá-lo por três anos. Para mim é inconcebível o cinema brasileiro sem o Festival, seria como cancelar o carnaval no Rio de Janeiro. Espero que não tenhamos que ver isto.”
Eduardo Valente, cineasta, crítico e curador

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“Um festival não é apenas uma celebração, é momento de encontro, reflexão e resistência que se faz ainda mais necessário em tempos de crise. Sobretudo em se tratando do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais tradicional do Brasil e que tem como sua principal marca debater e pensar o país. Não se cancela um evento assim sem o diálogo e antes de esgotar todas as alternativas.”
Iberê Carvalho, cineasta

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“Foi com muita indignação e descrença que recebemos a declaração do cancelamento do Festival de Brasília por falta de dinheiro. Lamentamos que o setor não tenha sido consultado sobre alternativas e possibilidades. A dilapidação dos bens culturais, o desmonte das políticas públicas e o constante ataque ao setor cultural virou marca de governo. Resistiremos a mais essa afronta, pois um governo sem respeito pela cultura não representa seu povo!”
Ylla Gomes, produtora audiovisual e conselheira da Associação de Produtoras Independentes (API)

“O Festival de Brasília é nossa conquista, do CINEMA BRASILEIRO e do CINEMA BRASILIENSE. Há mais de 50 anos… O que vivemos agora é um evidente descompromisso com nossa cultura. Há formas e formas de manter o festival vivo, ainda em tempos de pandemia. Festivais de todo o mundo se mobilizam para isso. A tristeza para quem ama o Festival, o cinema e a cultura é muito grande e nos fere profundamente. Mas não nos desmobilizará. Frequento o Festival desde a década de 90. Sou de uma geração que nasceu em Brasília e por aqui resolveu fazer cinema. Pessoalmente encontro no fazer cinematográfico um caminho de transformação. E o Festival sempre foi e é uma motivação para nós; nossa escola, vitrine; nosso encontro nacional; nossa celebração; nosso mais importante espaço de reflexão. Não podemos perder esse espaço. Seria perder uma parte de nós.”
Marcelo Diaz, cineasta

“Eu acho inadmissível. Em vez de procurar uma solução plausível, cancela-se um evento que, antes de mais nada, é um bem inalienável da comunidade brasiliense. E uma falta enorme fará a todo o cinema brasileiro, porque não conheço nenhum festival brasileiro que tenha sido mais fiel, mais legítimo. É o mais antigo festival de cinema sediado em Brasília, mas de ampla repercussão nacional. Não é possível que não se encontre uma solução de governo. Nosso festival é parte integrante, inalienável, da cultura brasileira. É algo de muito inquietante e lamentável que esteja acontecendo nesses termos. O cinema brasileiro sobreviveu a várias crises em função de atitudes tomadas no seio do nosso festival. É impensável que a gente se despeça assim de um evento e de um acontecimento cultural do naipe do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.”
Vladimir Carvalho, cineasta

“Fui curadora do Festival de Brasília. É uma tristeza, porque o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é o mais importante do Brasil para o cinema nacional; é o mais consolidado; é referência e atrai atenção mundial pela sua seleção, público e realizadores, tanto aqueles que estão despontando quanto aqueles que já estão na estrada há muito tempo. Tudo isso é de uma importância imensa para o Brasil — e essa vitrine não pode ter essa parada. Eu entendo a falta de verba por causa da pandemia, mas isso é algo que preocupa, porque esse recurso já é anualmente destinado ao Festival. Ele não acontecer esse ano é uma notícia muito triste. Eu acho que precisa ter uma mobilização da classe, fazer com que o DF e o Brasil encontrem um mecanismo para não perder essa edição.”
Anna Karina de Carvalho, diretora geral do Brasília International Film Festival (BIFF)

“Lamentamos o cancelamento de uma das maiores janelas de difusão, diálogo e reconhecimento do cinema do Brasil e da cena local — ainda mais diante de alguns diálogos que vinham sendo promovidos por um conjunto representativo de associações do setor com os representantes do poder público sobre o festival, inclusive no tocante a políticas inclusivas e de descentralização, como o prêmio Zózimo Bulbul, proposto pela Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro e pelo Centro Afro Carioca de Cinema para o reconhecimento de realizadoras/es negras/os no FBCB. Esperamos do governo um compromisso com políticas culturais de manutenção do setor audiovisual em meio à fragilidade instalada pela pandemia e do desmonte nacional que atinge toda a cadeia produtiva do audiovisual.”
Victor Hugo Leite, conselheiro regional da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) no Centro-Oeste








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