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Cinema

‘O Sequestro do Voo 375’ volta a crime com avião que fica de ponta cabeça no set

Elenco e figurantes precisaram tomar remédio para enjoo e fazer uma preparação física antes de se descabelar e gritar de ponta-cabeça nas gravações

FolhaPress

24/12/2022 11h58

Foto: Reprodução

Leonardo Sanchez
São Paulo – SP

Um cilindro enorme, encaixado numa plataforma a alguns centímetros do chão, arranha os ouvidos à sua volta quando começa a rodar, inadvertidamente, em 360 graus. O barulho é ensurdecedor, e ganha volume quando revistas, copos de papel e outros objetos são arremessados para todos os cantos dentro daquela forma geométrica.

Neles, é possível notar o emblema azulado da Vasp, empresa aérea que voou pelo Brasil entre os anos 1930 e os 2000. Inoperante há quase duas décadas, a companhia causa uma sensação de anacronismo para dezenas de pessoas naquele galpão enorme em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Não é como se a Vasp fosse voltar ao mercado, no entanto. Os itens foram recriados para “O Sequestro do Voo 375”, filme que ocupa atualmente os históricos estúdios Vera Cruz e que, em nome da verossimilhança, decidiu remontar um Boeing dentro do set de filmagem, um que fosse capaz de simular manobras como aquele giro sobre o próprio eixo.

Elenco e figurantes precisaram tomar remédio para enjoo e fazer uma preparação física antes de se descabelar e gritar de ponta-cabeça nas gravações do que deve ser o clímax da trama.

O longa não é, porém, uma ação genérica e irreal no céu, daquelas que Hollywood gosta de fazer. Ele reproduz as arriscadas estratégias de Fernando Murilo de Lima e Silva enquanto ele tentava desestabilizar um homem que, em 1988, queria sequestrar um voo comercial para arremessá-lo contra o Palácio do Planalto, numa resposta à crise vivida pelo Brasil e às políticas do então presidente José Sarney.

Para ser fiel ao clima de terror dentro da cabine, o diretor Marcus Baldini e a produtora Joana Henning decidiram fazer algo faustoso para os padrões de orçamento do cinema nacional, ainda mais em tempos de cintos apertados diante da displicência do governo Bolsonaro pela área.

Eles alugaram um Boeing original da época, o desmontaram, puseram em caminhões que iam de Goiás a São Paulo, renovaram suas partes e remontaram em estúdio. Gravar dentro de uma aeronave como a da época, eles contam, era essencial não só para que o público embarcasse na veracidade da história, mas para simular manobras como o “tonneau” -o tal giro completo.

Simplesmente alugar um avião moderno e parado em algum aeroporto limitaria o senso de imersão, engessando o trabalho dos atores e os enquadramentos da câmera e demandando da pós-produção efeitos que talvez fossem pouco convincentes.

“Esse filme é um investimento alto, arriscado, porque as bilheterias ainda estão instáveis, mas enquanto empresa é um posicionamento importante”, diz Henning, da produtora Escarlate. O orçamento ficou na casa dos R$ 15 milhões, próximo de recordistas do cinema nacional.

“Se a gente não arriscar, nunca vamos subir os patamares e chegar aos mercados internacionais mostrando que somos capazes de entregar algo desse tamanho. E a gente só usa mão de obra brasileira no projeto.”

Do valor, quase R$ 2 milhões foram só no Boeing. Para a escala da empreitada, a cifra nem é tão alta, e foi trazida para baixo graças a um acordo com o colecionador que mantinha a aeronave numa fazenda –a produção a revitalizaria em troca do uso. O que mais gerou dor de cabeça foi seu transporte de Goiás para São Paulo, em caminhões que ficaram três dias parados devido aos bloqueios golpistas que tomaram estradas após as eleições.

Uma rede de apoio da Força Aérea Brasileira, que cedeu caças, bases e sua expertise, também foi essencial. Ainda assim, o orçamento só foi possível graças a uma mistura de investimentos públicos e privados, nacionais e estrangeiros, vindos da própria Escarlate, da LTC e da Star Original Productions, braço da Disney.

Previsto para 2023, mas ainda sem mês definido, “O Sequestro do Voo 375” deve alçar voo nas salas de cinema da América Latina e ter um lançamento global pelo streaming Star+.

Isso não quer dizer que o longa se alinhou aos padrões hollywoodianos de filmes de ação. Baldini, que dirigiu “Bruna Surfistinha” e “Os Homens São de Marte… e É pra lá que Eu Vou”, conta que se guiou por uma tentativa de trazer certa brasilidade para a trama.

Por isso, o contexto no qual o incidente ocorreu, bem como as vidas dos envolvidos, são amplamente explorados. Pelas telas vamos saber que Raimundo Nonato Alves da Conceição, o sequestrador, havia sido atingido pela crise econômica que maltratava o Brasil da época, que ainda se reorganizava no pós-ditadura.

“Por causa do cinema americano, a gente tem referências de filmes muito maiores, em termos de orçamento, e fatalmente isso se imprime na tela. O cinema brasileiro enfrenta essa comparação cruel. Mas é muito interessante poder fazer cinema de gênero com histórias nacionais. Isso me interessou para além da aventura técnica que seria”, afirma Baldini.

Por meio do roteiro, visitamos o passado e as motivações para que Nonato entrasse naquele voo que ia de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro com um revólver. Naquele 29 de setembro de 1988, ele matou o copiloto Salvador Evangelista e, depois, foi ele próprio baleado pela Polícia Federal.

O pouso aconteceu com um caça supersônico da FAB na cola e depois que o piloto, vendo o ponteiro de combustível se aproximar do zero, decidiu se arriscar e mergulhar a aeronave numa queda em parafuso de 9.000 metros.

Vale ressaltar que até então os aeroportos brasileiros não tinham detectores de metal e outras formas contundentes de evitar atentados, o que só mudaria 13 anos depois, com o 11 de Setembro.

Na época do ataque terrorista às Torres Gêmeas, renasceu o interesse pelo sequestro na mídia brasileira, com suas figuras centrais sendo buscadas à exaustão para entrevistas. Logo depois o caso caiu novamente no esquecimento -apesar de, dentro da aviação, ser amplamente conhecido e estudado, afinal, um avião daquele porte não foi feito para ficar intacto após manobras como o “tonneau”.

Vestindo os uniformes recriados à perfeição pela equipe de figurino de “O Sequestro do Voo 375” estão Danilo Grangheia e César Mello, como piloto e copiloto, e Juliana Alves, Wagner Santisteban, Diego Montez e Arianne Botelho na tripulação. Nonato, o sequestrador, é vivido por Jorge Paz, que se junta ao exército de passageiros em roupas oitentistas.

Pessoas envolvidas no caso foram ouvidas para ajudar na reconstituição e um dos atores, Mello, teve ajuda extra na hora de preparar o personagem. Filha do copiloto, Wendy Evangelista esteve diversas vezes no set de filmagem, numa experiência que ela conta ter trazido muitas dores e também muitas alegrias.

“Meu pai pôs muita vida nos seus 34 anos, porque ele sempre foi muito intenso. Se eu voltasse e pudesse escolher, eu escolheria ter ele como pai novamente, mesmo sabendo que o preço seria perdê-lo tão cedo”, afirma ela, que passou seus primeiros oito anos em aviões, emocionada.

Depois da morte do pai, Wendy pegou trauma de voar. Ela se tratou e hoje, como psicóloga, é especializada justamente em ajudar outras pessoas com essa fobia.

Além dela, foram indispensáveis na reconstituição daqueles personagens e eventos jornalistas que cobriram o caso, o delegado responsável, o sniper que alvejou o sequestrador, o piloto de caça que fez a abordagem, passageiros, mecânicos da Vasp e, também, o próprio comandante do voo 375, Fernando Murilo de Lima e Silva, morto há dois anos.

Uma equipe enorme, oficial e extraoficial, para que um filme de ambições tão grandes possa alçar voo.

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