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Luz, câmera, ação: viva o cinema brasileiro e quem movimenta a cena cinematográfica na capital

JBr conversou com o produtor audiovisual Gustavo Serrate, vencedor da 50ª edição do Festival de Brasília de Cinema

Cavalo Marinho. Foto: Divulgação

Amanda Karolyne
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O dia do cinema brasileiro é comemorado em 19 de junho. Essa data é celebrada em homenagem ao ítalo-brasileiro Afonso Segreto, que, em 1898, registrou as primeiras imagens em movimento, feitas em solo brasileiro. Para falar com propriedade sobre o tema, o JBr conversou com o produtor audiovisual Gustavo Serrate, vencedor de prêmios como o “Candango” na 50ª edição do Festival de Brasília de Cinema.

A paixão de Gustavo pelo cinema começou como muitos da geração dele: o pai comprou uma câmera VHS no início dos anos 90 e ele, garoto de 14 anos à época, ficou encantado pelo poder que aquela pequena máquina tinha de registrar as coisas. “Naquele tempo, televisão ainda era um evento, ir ao cinema era uma coisa que não era tão comum, e a gente não tinha acesso a essas plataformas”, destaca. A linguagem audiovisual era de fato uma descoberta. “Lembro que eu filmava as coisas da família. Isso foi me gerando um interesse de saber como tornar aquele material em algo mais interessante. Aí eu tentava brincar com a câmera, montar, começar a descobrir os enquadramentos e tal”, afirma.

Passado o tempo, Gustavo começou a fazer filmes com o irmão e amigos. As pessoas falavam que ele tinha jeito para a coisa e devia estudar cinema, mas ele não dava ouvidos. Até que um dia ele parou de lutar contra isso, e foi estudar na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. Voltou para Brasília e começou a se envolver com o cinema independente. Se reuniu com amigos que também curtiam cinema, e eles começaram a fazer essas produções. “Por muitas vezes a gente conseguiu entrar no Festival de Brasília, muito porque o Fundo de Apoio a Cultura foi fazendo seu papel de trazer mais pessoas que podiam ter recursos para filmar”, frisa. Para ele, de 2008 para cá, dá para ver uma evolução no festival graças a esse investimento.

Atualmente, Gustavo trabalha com vídeo de forma geral, não só produções de cinema, como produção de vídeo para empresas. “Para cinema na verdade, estou um pouco parado por causa do período que a gente está, mas estou criando projetos para retornar”, salienta. Ele é dono da empresa de produção audiovisual Cine 81. Com a pandemia, no entanto, vieram as dificuldades, e em 2020 simplesmente não deu para trabalhar.

“Apesar disso, fui tirar umas férias em Espírito Santo em 2019, e eu estava na praia, e me deparei com uns garotos andando de cavalo e entrando com os cavalos no mar, e eu vi aquela cena lindíssima e aquilo me deu uma fagulha – que a gente sempre está em busca desse olhar poético, dessa coisa da imagem bonita, icônica que evoca sensações”, descreve. E como Gustavo sempre viaja com os equipamentos dele, o que para ele é o equivalente a ser o baterista de uma banda. Ele pediu aos garotos para filmar a cena, e manteve contato, para voltar lá um ano depois, antes da pandemia. E então surgiu o filme independente Cavalo Marinho. O curta ganhou prêmio de melhor fotografia na última edição do Festival de Brasília.

Filmada em 2020 e finalizada em 2021, a produção conta a história de um grupo de garotos que vivem em um bairro chamado Barramares. “É um bairro bem perigoso, mas eu quis lançar um olhar que não fosse sobre a violência, que fosse sobre esse aspecto lúdico desses garotos e da intimidade que eles tinham com os cavalos”.

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Cavalo Marinho está circulando em festivais, mas Gustavo pretende traduzir para o inglês, espanhol e talvez francês, para ele poder rodar em outros lugares do mundo. “Quero que ele possa girar o mundo, ele vai ter então mais ou menos um ano e meio pela frente de festivais, depois eu libero acesso dele na internet, ou tento outras formas com que ele seja visto”. Gustavo comenta que quando se termina um produto, o que os cineastas mais desejam é que suas obras sejam vistas pelo máximo possível de pessoas. Para ele, isso é outra coisa que o Brasil precisa. “Dessas janelas de exibição, seja televisão ou internet, mas de canais que possibilitam que o produto nacional cinematográfico seja visto”.

Foto: Divulgação

Projetos de Gustavo

Ocupação é um curta de 2016, filmado na capital, sobre um prédio abandonado, e um grupo de pessoas que ocupam o espaço, que estão prestes a serem retiradas de lá pelas autoridades. Em 2017, ele filmou um longa em Brasília, totalmente independente. “Eu praticamente financiei ele com a ajuda de alguns amigos: Rodrigo Huagah, Tiago Esmeraldo, Alex Medrado, e Pablo Peixoto”. O cineasta criou o longa O Céu Perdeu a Cor. “É um filme em preto e branco, com uma linguagem um pouco diferente, ele é todo feito de recortes, então é um filme todo recortado, uma mescla de cenas e personagens, em que o personagem principal é a cidade”, explica. A obra tem uma linguagem poética e livre, em que conta a história de quatro personagens, que são, segundo Gustavo: pessoas que de alguma forma estão quebradas pela vida e estão passando pela cidade e cruzando caminhos. “E toda a narrativa vai mostrando em fragmentos essa cidade através de diferentes momentos”. As histórias dos quatro em algum momento se cruzam. O longa já foi exibido, em 2020, com exibição online com o Festival de Brasília, e ganhou um prêmio de melhor fotografia no Festival de Caruaru.

Ele tem ainda o longa Mascarados, um longa que se passa em Espírito Santo, e fala sobre um grupo de crianças no carnaval de máscaras que ocorre na região. Para ele, esse é um exemplo do tempo que leva para se aprovar um longa-metragem. “O tempo do cinema que a gente faz com recursos, para escrever um roteiro é um processo demorado, para você conseguir um financiamento, porque o financiamento do cinema é muito alto, então conseguir recursos é muito difícil. E às vezes, passa anos para um projeto acontecer”. Ele escreveu o roteiro em 2014. “Ganhei um Fac na época para escrever, fiz a pesquisa e fui para o Espírito Santo, e foi um processo bem legal. Eu escrevi o roteiro do longa-metragem infanto juvenil, sobre uma criança que quer participar do carnaval de máscaras, e aí tem toda a história desse garoto, porque ele tem que levar a irmãzinha junto, o pai obriga e ele não quer levar a irmã. No meio do caminho ele se perde da irmã, e aí a história vai se desenrolando”, conta. Ele diz que não pode contar muito ainda, por ser um projeto que está em processo de produção.

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O olhar da profissão

Para ele, quem é do audiovisual geralmente está sempre pensando na linguagem do trabalho. “Costumo falar que a gente vê tudo pelos olhos da lente, e então é muito comum entre as pessoas do vídeo, assim de pensar: isso aqui dava uma bela locação. Ou se alguém contar uma história, a gente já pensa: nossa, isso dava um filme. A gente está sempre com esse olhar, porque a gente aprende tanto, que é difícil a gente olhar de outra ótica”, afirma. Ele acredita que qualquer profissão é assim, você vê o mundo pela ótica da sua profissão.

As inspirações dele surgem na vida, mas para ele nem tudo depende de inspiração, depende muito mais de trabalho. Às vezes tem uma fagulha que se acende, e Cavalo Marinho é esse exemplo, porque de acordo com Gustavo, foi uma inspiração, em que ele estava sem esperar por nada, e os garotos estavam lá na praia dando banho no cavalo. “Era uma cena muito bonita, e eu sou fotógrafo também, eu vejo uma cena que daria uma foto, e se eu não tiver uma câmera na mão, eu falo: nossa, isso daria uma foto. Mas muitas vezes escolho não fotografar, porque às vezes é bom também, a gente só olhar, mas a gente está atento também”, opina. Entretanto, só a inspiração, sem um trabalho, na maioria das vezes nada acontece se você não trabalhar em cima. Como escritor, Gustavo acredita que é muito o processo de jogar as ideias bagunçadas no papel, e com essas ideias bagunçadas, trabalhar em cima delas. “Você joga aquilo, porque com o papel em branco você não tem com o que trabalhar, e mesmo que elas soem ruins no papel, é melhor ter um monte de ideias ruins jogadas, porque aí você tem uma massa disforme e começa a trabalhar nela”, anuncia.

Ele conta que Mascarados foi isso, antes de escrever um roteiro, ele tinha uma ideia vaga de história na cabeça, e o roteiro sofreu muitas transformações. Em que, personagens que eram principais se tornaram coadjuvantes, outros personagens desapareceram e um personagem que era pequeno na história, virou protagonista. “Então o processo da escrita é um processo muito interessante, porque é uma descoberta também. O escritor tem esse super poder de reescrever”. O que o ajuda muito, é pensar numa estrutura. Gustavo era contra, achava que o processo de escrita, tinha que ser estilo livre. “Mas fui me dando conta que a estrutura te dá liberdade, porque ela permite você ter uma estrutura mesmo. Vejo a escrita como a construção de paredes de uma casa, você tem que ter uma construção de ferro, uma base forte e sólida, e vai botando os tijolos camadas por camadas, e a história vai ganhando corpo de verdade”, exemplifica.

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Ele considera, no que diz respeito ao cinema, que todos os seus trabalhos são projetos pelos quais ele estava apaixonado. “Eu fico tão apaixonado que não consigo pensar em outra coisa, chega a ser até um processo um pouco cansativo, parece que foco todas as energias naquilo e é até um processo um pouco difícil porque você precisa mediar sua vida pessoal com a profissional. Já aconteceu de estar tão aficcionado com o trabalho e o assunto, que eu não penso em mais nada, é como se ficasse com a visão de um cavalo: eu só vejo aquilo na minha frente”, explica. Ele sabe que às vezes isso não é legal, porque você abdica de coisas importantes na sua vida.

A cena

Para Gustavo, agora com o Fac que foi aberto, tem produções independentes acontecendo na capital. “Tem gente na periferia fazendo cinema, em Ceilândia tem muita gente produzindo principalmente, lá é um dos lugares que tem mais efervescência cultural aqui de Brasília, tem até o Ardiley Queirós”, cita. Ele aponta que os locais onde estão fervilhando de produções, são as periferias da cidade. “Mas da pandemia para cá, apagou muito assim, a gente não ouve tanto falar sobre o cinema de Brasília. A gente mesmo da área ouve pouco falar, mas eu sei de produções que aconteceram”, frisa.

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Um realizador de Brasília muito premiado, é o Fauston Silva, que rodou um longa metragem. “Ele movimentou muita gente, é legal porque o cinema gera muito emprego, gera muita atividade e aquele dinheiro que vai para um filme, entra na sociedade e retorna”, categoriza. Ele cita Filipe Gontijo, outro cineasta de Brasília, que filmou um longa que agora está em processo de produção.

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“Tem produções acontecendo, mas tem que crescer mais. Eu acredito que com o próximo Fac, volta a movimentar a cena”, salienta. Para ele, o Fac é um processo que permite uma cena se formar, visando um investimento que possibilite com que no futuro, a cultura se auto sustente. Entretanto, ele ressalta, para a cena chegar a esse ponto de se auto sustentar, ela precisa dessa injeção inicial. “Então o Fac, é um fomento, que forma profissionais, forma gente trabalhadora, forma um grupo de pessoas capacitadas para que no dia que a indústria começar a girar, a gente tenha gente boa no mercado para fazer acontecer”, adiciona. Segundo ele, infelizmente essa indústria ainda precisa desses fomentos, mas muita gente que começou no cinema hoje em dia já trabalha, e ele é um desses casos. “Acho que Brasília já tem profissionais capacitados, tem cenografia, bons diretores de fotografia, bons diretores, bons atores, roteiristas, tem profissionais, pessoas capacitadas, mas não adianta ter essas pessoas e não ter oportunidade”, afirma.

Segundo o secretário da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues, o cinema do Distrito Federal segue em produção continuada, mesmo com a suspensão de filmagens por conta da Covid-19, os editais do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) não pararam de fomentar o cinema da capital, hoje reconhecido internacionalmente pela sua qualidade. Ele aponta que o FAC é um dos maiores investidores do audiovisual do país. “É o instrumento mais denso de fomento à Cultura do Brasil. Ele abre espaço, pegando na mão de quem nunca entrou na roda em diversas linguagens artísticas e culturais”, afirma. De acordo com Bartolomeu, no edital FAC Brasília Multicultural II, de 2021, houve uma linha específica para Produção de Longa-Metragem, com vagas específicas para diretores que estavam produzindo o seu primeiro longa-metragem. “Só na área de cinema, em 2021, fomentamos a produção de 22 longas-metragens, e o aporte ao audiovisual ficou em R $50 milhões entre os editais Multicultura 2 e Visual Periférico”, informa.

Para o secretário, a volta do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro impacta mais na expectativa do encontro entre plateia e filmes projetados na tela, sempre marcado por emoção à flor da pele. O que é importante para o cinema brasileiro. Na economia criativa, o Festival se manteve ininterrupto nos períodos pandêmicos, distribuindo, só em 2021, R $400 mil em prêmios. Demonstrando, que mesmo nos tempos em que o cinema teve de recorrer a outras formas de existir, continua sendo uma arte que resiste aos tempos mais difíceis.








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