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Cinema

Filme de Denys Arcand é mais tolo que as falhas do politicamente correto

O filme se aprofunda com o espectador quando reforça o testamento do protagonista, ou do próprio Arcand, talvez, e se enfraquece quando busca a crítica a um estado de coisas, o testamento da alta cultura

Redação Jornal de Brasília

04/07/2024 16h56

testamento

Foto: Divulgação/Imovision

SÉRGIO ALPENDRE
(FOLHAPRESS)

Ainda nos minutos iniciais de “Testamento”, Jean-Michel Bouchard, interpretado pelo ótimo Rémy Girard, está numa cerimônia cultural para receber um prêmio especial “para nossos idosos”, conforme diz a apresentadora.

Antes dele, escritoras feministas subiram para receber seus prêmios, cada qual por um livro diferente -um deles se intitula “Vaginas em Chamas”. Elas passam praticamente por cima de Bouchard no caminho para o palco.

Quando ele finalmente é chamado, as palmas são tímidas, bem diferente da acalorada reação às outras premiadas. Por que um homem branco, da terceira idade, provavelmente preconceituoso e privilegiado, deveria receber qualquer prêmio?

Na verdade, o prêmio é por causa de livros que um outro Bouchard escreveu, de nome Michel Marc, um dramaturgo famoso com o qual Jean-Michel foi confundido. Ele procura corrigir o equívoco, mas é solenemente ignorado.

As causas de Denys Arcand são evidentes. A cultura é dominada por gente medíocre. A sociedade só é coletivista na busca pela mediocridade. As lutas das minorias se encaminham, por mais válidas que sejam, reescrevendo irresponsavelmente a história da arte, enquanto o etarismo voa livre e solto, corroendo a ideia de justiça social e igualdade de possibilidades.

O diretor parece disposto a soltar farpas para todos os lados, dos idosos sarados aos jovens ativistas, dos jornalistas arrogantes aos políticos, passando por um homem caricatural, vivido pelo também diretor Robert Lepage, que ocupa o cargo de ministro da Cultura.

Estão num nível abaixo da caricatura as feministas e os chamados identitários, o que dá a entender claramente que o filme declara guerra ao politicamente correto.

Denys Arcand teve seu momento de glória no circuito descolado da segunda metade dos anos 1980, com o lançamento de “O Declínio do Império Americano”, de 1986, seguido, um pouco mais tarde, por “Jesus de Montreal”, de 1989. O segundo é superior ao primeiro, mas nenhum deles faz jus à fama do diretor.

Não melhora com o filme seguinte, “Amor e Restos Humanos”, de 1993. Arcand saiu um pouco do mapa.

Em 2003, ressurge com “As Invasões Barbaras”, hino ao gosto médio disfarçado de alta cultura que fez barulho, fazendo voltar o nome do cineasta aos holofotes da cinefilia. Quase todos esses filmes têm Girard no elenco.

Em 2023, após alguns filmes pouco falados por aqui, incluindo o terrível “O Reino da Beleza”, de 2014, e o estranho “A Queda do Império Americano”, de 2018, tentativa de voltar à verve artística do filme de 1986, Arcand ressurge com “Testamento”, espécie de acerto de contas com o mundo atual.

Mais uma vez temos seu olhar de superioridade em relação às pessoas e ao mundo, o que não seria problema se essa superioridade encontrasse coro em seu trabalho de roteirista e diretor, mas isso jamais acontece. Arcand não é Godard, definitivamente, e dirige de modo acadêmico, salvo um ou outro momento.

Criticar as pautas atuais jamais será um problema. O caso é que a crítica de Arcand é mais tola que as falhas do politicamente correto. Em um momento logo no início, Bouchard conversa com um amigo que lhe diz que nomes como Michel Foucault e Andrei Tarkovski hoje estão na lata de lixo da história, completamente esquecidos.

Ou o filme se passa daqui a uns 50 anos ou o personagem ignora que Foucault é citado em várias pesquisas acadêmicas de humanas e Tarkovski se tornou cineasta cultuado, seu nome maior que os filmes. Entende-se a ironia, mas o golpe só atinge o ar.

Esse tipo de tolice abala ainda mais o que poderia ser um importante grito de recusa, algo de que o mundo de hoje, sobretudo o da cultura e das artes, merece.

“Testamento” só é realmente interessante quando foca em Bouchard, em sua desilusão, assim como no sentimento de que sua vida está no fim.

Ou seja, o filme nos toca quando reforça o testamento do protagonista, ou do próprio Arcand, talvez, e se enfraquece quando busca a crítica a um estado de coisas, o testamento da alta cultura. Melhor no decadentismo do que na sátira.

E nos toca ainda mais quando Bouchard se enche de vida e procura maneiras de prolongar sua existência, nos raros momentos em que o filme parece dizer “abaixo o etarismo e o derrotismo” e mostra um caminho mais florido para o protagonista.

TESTAMENTO
Onde Em cartaz nos cinemas
Classificação 14 anos
Elenco Rémy Girard, Sophie Lorain, Marie-Mai Bouchard
Produção Canadá, 2023
Direção Denys Arcand

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