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Estreia: filme “Bela Vingança” ataca machismo estrutural

Em uma das histórias que ganharam maior repercussão, a modelo e blogueira Mariana Ferrer, na ocasião com 21 anos, foi dopada e estuprada

Por Gabriela Gallo (Jornal de Brasília / Agência Ceub)

Histórias de violência sexual no Brasil estampam diariamente as manchetes dos veículos de comunicação, e causam perplexidade e busca por justiça. Em uma das histórias que ganharam maior repercussão, a modelo e blogueira Mariana Ferrer, na ocasião com 21 anos, foi dopada e estuprada em uma festa em Florianópolis. Existiam provas contra o réu, André de Camargo Aranha.

No ano passado, o caso teve seu primeiro julgamento e, o que se esperava ser considerado como estupro de vúlneravel, o juiz Rudson Marcos, da 3ª Vara Criminal de Florianópolis, declarou que haveria “estupro culposo”. O caso não acabou e seguiu para segunda instância. Pelo mundo, o sentimento de que é preciso alertar para violência contra mulher é trazido de diferentes formas pela Sétima Arte. Na mais recente repercussão, o filme norte-americano “Bela Vingança” (título original “Promising Young Woman”, 2020), escrito e dirigido por Emerald Fennell, traz para a telona as discussões próprias sobre o machismo estrutural e as reações das mulheres. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar e venceu na categoria de “Roteiro original”. O filme estreia, nesta quinta (13), em todo o Brasil.

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O longa conta a história de Cassandra, ou Cassie, Thomas (interpretada por Carey Mulligan), uma mulher de 30 anos que após um evento traumático envolvendo a morte de sua melhor amiga, Nina Fisher, toda noite vai a boates e casas de festas buscando vingança de homens.

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Toda noite Cassie finge estar completamente alcoolizada, a ponto de mal conseguir se manter em pé, e espera ser abordada por algum homem que “queira a ajudar”. Quase sempre são os que se autodeclaram “caras legais”, homens que não aparentam serem ameaçadores, sem histórico criminal e que você cruzaria na rua o tempo inteiro.

Ao oferecerem a ajuda, eles levam Cassie para suas casas e, se aproveitando de sua vulnerabilidade, tentam transar com ela. Pouco antes do ato se concretizar, ela “acorda” de seu teatro e realiza seu objetivo. Com o passar do filme, a protagonista descobre que as pessoas responsáveis pela morte de Nina estão de volta à sua cidade e planeja uma vingança em maior escala e proporção.

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Impactos

Cassie era uma estudante de medicina que largou a faculdade após o acontecimento com Nina e nunca mais voltou para a faculdade. Ela ainda mora com os pais, têm poucos amigos e é dona de um humor ácido e irônico. Sua personagem é bem dividida entre ser uma atendente numa cafeteria com poucos amigos e humor sarcástico de manhã e à noite se tornar a femme fatale atrás de sua presa.

Até sua forma de vestir é dividida entre seus dois lados: de manhã tende a se vestir com roupas longas e usa pouca maquiagem; enquanto à noite abusa em maquiagens pesadas, decotes e roupas mais justas.

A heroína da história tem a capacidade e as oportunidades para ter um grande futuro pela frente, mas não consegue se desapegar dos traumas passados (mesmo que não tenham acontecido diretamente com ela) e resume sua vida a buscar vingança, especialmente contra homens. Em momentos da obra, ela tenta seguir sua vida e ser feliz, mas os fantasmas do passado e sua sede de querer fazer justiça sempre a perseguem.

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Inspirações

Uma das inspirações do filme é o caso Brock Turner em 2016, nos Estados Unidos. Brock Turner, estudante de Standford (universidade de prestígio na Califórnia), foi acusado e declarado culpado por agressão sexual e tentativa de estupro em uma mulher alcoolizada durante uma festa da faculdade. Ao final do processo, a acusação solicitou uma pena de prisão de seis anos, mas ele foi condenado por apenas 6 meses (sendo liberado em 3 por bom comportamento).

Parte da decisão final do juiz – que posteriormente foi removido do cargo – foi na justificativa que o agressor, como atleta de natação da universidade sem histórico de ficha criminal, era um “Promising young man” (ou, um jovem homem promissor) que não merecia ter sua vida destruída. 

“- O maior medo de um homem é ser acusado de algo assim!

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– E você sabe qual é o maior medo de uma mulher?”

Vingança(s)

Os métodos usados por Cassie são questionáveis. Ao contrário de outros filmes de mulheres que buscam vingança nos quais suas protagonistas usam da violência física, Cassie opta pelo terror psicológico. Ela humilha seus atingidos de alguma forma, mas nunca temos certeza se ela realmente vai fazer algo crítico contra essa pessoa.

A personagem por vezes se comporta de uma forma mas age de outra, portanto nunca temos certeza o que ela pode fazer, gerando momentos em que podemos achar pouco o que ela faz e em outros nos questionarmos se é exagero. A edição e direção do longa permitem essa dúvida, mantendo o espectador preso e envolvido com a obra. 

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Entretanto, não é garantia que os métodos aplicados são eficazes ou que surtirão algum verdadeiro efeito futuro. Cassie constantemente se coloca em situações de perigo, mostrando que já não se importa muito com sua vida, desde que chegue a seu objetivo final.

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No filme ela também se vinga de mulheres e parece pesar mais a mão para atingi-las. Ao contrário dos homens, que não temos certeza se a vingança surtiu verdadeiramente efeito ou não, as cenas com as mulheres são fortes e temos certeza que surtiram efeito em suas vítimas.

Cultura do estupro

 O filme mostra o machismo estrutural enraizado pelo patriarcado e tenta desconstruí-lo através de questionamento e momentos onde a pessoa deve “pagar pelo próprio veneno”. Falas para culpar a vítima como “ela fez por merecer”, “se você bebe a tal ponto ela está pedindo para que isso aconteça” e diversos outros pensamentos dentro do senso comum são reforçados ao longo da obra.

Com exceção de Cassie, todos os demais personagens da obra se conformam e acreditam que o mundo funciona dessa forma – onde um homem “não teve a intenção” de cometer ou tentar cometer tal crime e a mulher “estava pedindo por isso”.

Apesar de comportamentos ou falas de alguns personagens de primeira aparentarem serem caricatos, não é difícil imaginar uma pessoa conhecida que faça um comentário ou aja de determinada forma.

Assim como na nossa sociedade, a cultura do estupro é normatizada, especialmente entre as interações de vinganças femininas. Entretanto, o filme como um todo mostra a perspectiva de superioridade masculina em cima da feminina já que “as coisas funcionam desse jeito. É a vida”. 

No Brasil, a cada 2 horas uma menina é estuprada, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (registrado em 2020). Nessa realidade, esse tipo de discussão e narrativa cinematográfica é necessária. O filme foi feito para incomodar, porque o incômodo gera o questionamento que gera a mudança.

Suspense 

“Bela Vingança” nunca perde o tom de suspense, mas em diversos momentos transita entre o drama e, por incrível que pareça, uma comédia romântica. Os momentos de interação entre Cassie com Ryan (interpretado por Bo Burnham) dão leveza à obra de uma forma gostosa de acompanhar, mas sem perder o foco narrativo.

A trilha sonora do filme é predominantemente feminina e bem selecionada. No início do filme são apresentadas músicas que se remetem a homens, todas de forma mais grave,  nunca romantizando. Em momentos leves toca “Stars are Blind” da Paris Hilton; mas o ponto chave é a versão orquestrada de “Toxic” da Britney Spears no terceiro ato do filme. 

O filme usa e abusa de tons de rosa e azul, apesar de ser relativamente colorido. São usadas tanto com cores mais pastéis quanto tons mais chamativos, o que traz a feminilidade da obra. Os movimentos de câmera são precisos e marcados, mostrando aos poucos o que a diretora quer que o público descubra.

Carey Mulligan é a alma do filme. A atuação da atriz é versátil, intensa e verdadeira; merecedora de sua indicação a melhor atriz na cerimônia do Oscar. A personagem apresenta conflitos, dúvidas e dramas internos, mas mostra como ela não consegue se desprender do passado até o caso de Nina tenha um ponto final.

E o final…

O final do filme é surpreendente. Não é possível classificar que a diretora quis ser realista, chocar ou outra função narrativa. O final deixa um peso de toda sua discussão ao longo do filme.

O filme foi indicado a diversos prêmios, inclusive ao Oscar de 2021. Nele, a obra concorreu nas categorias de melhor filme, melhor direção, melhor atriz, melhor edição e melhor roteiro original, ganhando a última nomeação.

“Bela Vingança” é um suspense intrigante com uma premissa necessária e que gera diversas discussões acerca de seu tema e as ações de sua protagonista. O filme tem 114 min e classificação indicativa de 16 anos. Está disponível nos cinemas do país e para aluguel no serviço de streaming Amazon Prime Video

Ficha técnica do filme:

Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Laverne Cox, Alisson Brie, Adam Brody, Sam Richardson, Chris Lowell, Alfred Molina, Jennifer Coolidge, Connie Britton, Max Greenfield, Christopher Mintz-Plasse

Roteiro: Emerald Fennell

Direção: Emerald Fennell

Por Gabriela Gallo*
*A repórter assistiu à pré-estreia do filme a convite da Espaço/Z

Imagem e trailer: Divulgação






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