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‘Eduardo e Mônica’, música de Renato Russo, ganha as telas após atrasos da Covid

Ele era fã de novelas, de futebol de botão e ainda fazia aulinhas de inglês. Já ela era fluente em alemão, estudava medicina e passava horas vendo filmes do Godard ou lendo Rimbaud. Não é difícil adivinhar quem são esses dois personagens opostos, que se apaixonam perdidamente. A história de Eduardo e Mônica, afinal, foi ouvida por diversas gerações e se fixou na cultura pop, mesmo que o casal tenha se limitado ao ramo musical. Até agora.

Por FolhaPress 18/01/2022 2h22
Foto|Reprodução

Protagonistas da canção homônima composta por Renato Russo para a banda Legião Urbana, eles finalmente ganharão uma versão de carne e osso, que chega aos cinemas nesta semana, no filme “Eduardo e Mônica”.


Os quatro minutos da música foram expandidos para quase duas horas, numa trama que preserva os pontos principais da letra e dá um pouco mais de bagagem para o casal. Eduardo, vivido por Gabriel Leone, é um colegial descomprometido e um tanto abobalhado, neto de um militar, que certa noite vai com um amigo a uma festa.


Lá, ele conhece Mônica, interpretada por Alice Braga. Ela aparece pela primeira vez durante uma intervenção artística, entre as luzes piscantes da boate, e dá uma carona para Eduardo, que perdeu o ônibus. Intelectual, descolada e bem mais velha, ela parece muita areia para o caminhãozinho do rapaz -mas a carona evolui para um encontro, depois uma ficada e, finalmente, para o namoro.


“A gente tinha uma espinha dorsal, uma história de amor entre pessoas diferentes. E aí tivemos que ser fiéis ao espírito da música, mas sem transformar a trama num videoclipe ou sendo muito explícitos a ponto de copiar frases da letra”, diz Bianca de Felippes, produtora de “Eduardo e Mônica”.


Ela diz que foram cerca de 80 versões do roteiro até finalmente chegar ao texto usado nas gravações. Houve quem investisse mais no cenário político do Brasil da época, por exemplo, ou quem dedicasse mais tempo para falar da família do rapaz.


No fim, triunfou o que De Felippes chama de um roteiro mais simples, que preferiu não inventar muita coisa para poder se aprofundar nos pequenos detalhes deixados por Renato Russo -a ideia de uma família grande para Eduardo, por exemplo, foi descartada e ele terminou apenas com o avô, citado na música como adversário no futebol de botão.


Desde o princípio, no entanto, uma coisa estava clara -o filme teria de se passar em Brasília, em 1986, não nos dias atuais. Isso resultou no que o diretor René Sampaio considera um romantismo mais exacerbado, já que os encontros e desencontros de Eduardo e Mônica não são influenciados pela onipresença das redes sociais, como hoje.

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“A música tem um discurso romântico que é muito próprio daquela época. Sem WhatsApp fica melhor, com certeza”, diz ele, que garante, no entanto, que o longa tem apelo para o público moderno. “Apesar da ambientação, os dramas que aqueles personagens vivem são muito atemporais. E é uma triste coincidência, talvez, que alguns dos temas tratados continuam atuais, porque mostra que a gente não conseguiu superar alguns dos conflitos da época.”


Um desses conflitos acontece quando Mônica conhece o avô de Eduardo, na ceia de Natal. Ela, um espírito livre, mente aberta, filha de um perseguido político, fica horrorizada ao saber o que pensa o ex-militar sobre a ditadura, a tortura e até a homossexualidade. A discussão talvez ecoe o que muita gente deve ter vivido nas reuniões de fim de ano de agora, em famílias rachadas pelo bolsonarismo.


“Eduardo e Mônica”, no entanto, vem sendo planejado há muito mais tempo que a atual gestão do país. A semente foi plantada há quase uma década, quando outra parceria entre De Felippes e Sampaio inspirada numa canção do Legião Urbana, “Faroeste Caboclo”, foi lançada.


“Havia uma certa cobrança. Sempre que a gente ia a entrevistas e eventos para falar de ‘Faroeste Caboclo’, as pessoas nos questionavam. Aí a gente percebeu que uma hora teríamos que fazer também ‘Eduardo e Mônica'”, afirma De Felippes.

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A adaptação de agora, eles dizem, foi menos desafiadora do que a anterior, quando mais concessões e invenções tiveram de ser feitas. A ideia da dupla é desenvolver ainda um terceiro filme, fechando uma trilogia inspirada nas letras de Renato Russo. Eles dizem que é cedo para falar das músicas que estão sendo consideradas, mas prometem que o plano já está em ação.


Enquanto isso, De Felippes se ocupará com um documentário sobre a vida e a carreira de Renato Russo, que terá direção de Susanna Lira e será desenvolvido a partir de um acervo de cerca de 6.500 peças deixadas pelo artista. É como uma versão cinematográfica da peça “Renato Russo – O Musical”, biografia que a produtora manteve em cartaz, viajando pelo Brasil, por mais de uma década, até que a pandemia chegasse.


O novo coronavírus também mexeu com os planos do próprio “Eduardo e Mônica”, originalmente programado para 2020. Agora, o longa finalmente chega aos cinemas -depois de a produtora recusar diversas ofertas de compra do streaming-, num momento novamente delicado, devido à explosão de casos de Covid.


Mesmo assim, De Felippes e Sampaio esperam que ele, graças ao apelo do Legião Urbana, marque uma retomada dos espectadores aos filmes nacionais, que ainda não têm a mesma segurança de um “Homem-Aranha” para se aventurar nos cinemas. Quem sabe Eduardo e Mônica não os convençam a sair de casa.

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EDUARDO E MÔNICA
Quando: Estreia nesta quinta (20), nos cinemas
Classificação: 16 anos
Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone e Otávio Augusto
Produção: Brasil, 2020
Direção: René Sampaio








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